Segunda-feira, Setembro 10, 2007

Templo dourado

O nascer do sol começava a despertar a população local para mais um longo dia. A esta altura, ao contrário do que é habitual, já eu cruzava as ruas ainda desertas, de casa às costas em direcção à estação de autocarros. A contrastar com o silêncio das artérias da cidade, a estação encontrava-se em alvoroço. Centenas de homens lutavam por um lugar na desordeira fila da bilheteira que já seguia além dos limites da estação. Só mesmo o exército conseguia controlar este desassossego e agitação. No conseguia entender o que se passava. Apenas observava toda a situação ainda ensonado, enquanto esperava pelo autocarro e pensava como fui feliz em comprar um bilhete antecipadamente. Finalmente partimos, deixava Srinagar e observava os já exaltados oficiais a usarem paus de bambu para restabelecer uma ordem há já muito tempo perdida. Suspirava de alívio, deixava Caxemira sem um único arranhão e cheio de boas experiências. No caminho, o meu vizinho de lugar explicou-me a situação. O governo estadual emitiu um aviso a todos não residentes, sem trabalho e sem razão aparente para estarem em Caxemira, que haveria interrogatórios e execução de pesadas penas, caso se confirmasse que os alegados indivíduos tivessem ligações a Al-Qaeda. Era uma maneira de desencorajar pobres indianos, de estados igualmente pobres, que desapontados com vida são muitas vezes recrutados na fronteira, entre a Índia e o Paquistão, pela organização terrorista. Isto porque umas semanas antes, aconteceram atentados bombistas no Reino Unido, com indivíduos de nacionalidade indiana. Assim, centenas de homens procuravam desesperadamente um lugar no próximo autocarro, antes que o governo, como me disse o meu vizinho, "começasse a derramar sangue". Seguimos caminho, virei as costas aos Himalaias e comecei a mergulhar no calor sufocante e húmido das monções. Sentia-me a nadar no meu próprio suor. Para piorar a situação, o condutor decidia parar de quinze em quinze minutos para comer, beber chá, preencher o totobola, sei lá. Chegamos ao cúmulo de fazer dez quilometros em duas horas. Terminei a viagem, segui imediatamente para outro autocarro, onde nao havia lugar para bagagens. Levei tudo no meu assento. Empilhei as mochilas no meu pequeno lugar e sentei-me em cima da bagagem com a cabeça a roçar o tecto da enorme sauna em que o autocarro se transformou. Duas da manhã e cheguei a Amritsar. Apesar de cansado, sujo e cheio de fome estava feliz por mais uma maratona ultrapassada. Segui num ciclo-rickshaw conduzido por um homem palito até ao "Golden Temple". Passamos por ruas escuras, sujas, dominadas por matilhas de cães que à noite tomam conta da cidade. Nos passeios desmoronados, encostados às paredes, centenas de pessoas dormiam em pedaços de cartão ou simplesmente no cimento, despidas com farrapos que, uma vez, foram peças de vestuário. Mark Twain descreve esta situação de forma bastante peculiar e correcta "Parece que atravessamos uma cidade de mortos. Existe uma pequena sugestão de vida nestas desertas ruas ... por todo lado, no chão, dormem centenas de nativos . A sua atitude e rigidez falsifica a morte". Esta visão descreve as ruas de Mumbai (ex-Bombaim) mas aplica-se a qualquer grande cidade indiana. Entrei num grande dormitório de camas enfileiradas e recheadas com viajantes de varias nações. Caí no meu colchão quase pronto para dormir, mas antes ainda revi a cena há pouco vislumbrada. Mais uma vez pensei na sorte que tenho em poder usufruir diariamente de um tecto para dormir e de comida para me alimentar. Necessidades tão básicas, que tomo por garantidas e que sao para mim, mas não para milhões de habitantes neste grande, belo mas também injusto planeta. O Sri Harmardar Sahib ou "Golden Temple", como é conhecido, é o local mais sagrado para os Sikhs. A Meca para os homens de turbante e barba longa.Um lugar onde a paz e o misticismo vivem de mãos dadas com extrema boa vontade e também opulência. Talvez para mostrar que é possível as duas viverem juntas. O templo dourado é um edifício onde grande parte do exterior é coberto de ouro. Este templo situa-se num enorme complexo todo em mármore branca. A rodear o reluzente edifício, existe um enorme lago de água sagrado, onde os peregrinos vêm banhar-se e purificar-se. Especial roupa interior, cabelo nunca cortado, pulseira de prata e punhal de ferro são características do povo Sikh. Conhecidos como ferozes e guerreiros são também afáveis e amigos do próximo e a sua religião e história representam bem estas características. Fundada por Guru Nanak, um homem que não acreditava nas práticas religiosas do Islão e Hinduísmo, pois achava-as um pouco extremistas. Acreditava na igualdade de todos os seres humanos, desaprovava o sistema de castas, a idolatração de figuras religiosas, o jejum ou qualquer restrição alimentar. Uma religião mais aberta e compreensiva. O templo está aberto a todos, de todas as religiões e crenças. Toda a gente se pode banhar no lago sagrado, visitar o templo e usufruir de todas as infra-estruturas. Quartos, camas são fornecidos a peregrinos. Existe um dormitório para estrangeiros que funciona por doação. Uma cozinha, onde a comida é para todos sem qualquer pagamento envolvido, uma das marcas de um templo Sikh. Uma imensa máquina que trabalha vinte e quatro horas por dia. Trinta mil refeições são servidas diariamente com muitos sorrisos à mistura. Arroz, dal, chapati e água servidos a ritmo de metrelhadora enchem barrigas de todos os estratos sociais. Humildemente, aceita-se a comida sentado no chão. Por detrás desta boa acção está um impressionante sistema, onde centenas de voluntários preparam comida, servem-na, lavam pratos e copos, recolhem os utensílios. Algo tão impressionate, talvez mais que o próprio templo. Regressando ao complexo de mármore branca, peregrinos e visitantes, de pés lavados e cabeça coberta, percorrem os grandes corredores em volta do lago, refugiam-se debaixo das arcadas ao som das escrituras do livro sagrado (Sri Guru Grath Sahib Ji) que ininterruptamente é recitado ao som do harmónio e da tabla. À noite, realiza-se uma cerimónia onde o livro sagrado abandona o templo de ouro e é carregado por centenas de crentes até ao Sri Akal Takhat Sahib, onde é guardado e onde descansa até à manhã seguinte. O Akal Takhat é um edifício de cúpula dourada, onde, além de se guardar o livro sagrado, é onde todas as regras, leis e decisões são feitas e emitidas. Um género de tribunal constitucional da comunidade sikh. Em 1984, independistas Sikhs que desejavam um estado do Punjab refugiaram-se no complexo. A mando da primeira-ministra indiana Indira Gandhi, o exercito invadiu o solo sagrado e matou centenas de pessoas, além de destruir o Akal Takhat. A tal violação, os Sikhs tiveram a sua vingança como povo guerreiro que são. Indira Gandhi foi assassinada pelos próprios guarda-costas que eram Sikhs. O governo indiano reconstruiu o Akal Takhat e devolveu-o à comunidade, que o rejeitou, deitou abaixo e construiu tudo de novo com as próprias mãos. Usufruí da espiritualidade que rodeia o complexo. Sentado à sombra debaixo de uma das brancas e frescas arcadas, observava peregrinos a banharem-se e a circunrodar o templo e apreciava o dourado edifício. Por umas horas, abandonei o complexo e rumei à fronteira com o Paquistão em Attari, onde acontece uma das mais curiosas e mirambulantes cerimónias que alguma vez observei. O encerrar da fronteira entre os dois países, que acontece diariamente. Trinta minutos de protocolo militar, onde guardas escolhidos pela sua altura (para mostrar a superioridade do país) marcham até ao portão com o país vizinho e saudam os guardas do outro lado da fronteira. Entretanto, em bancadas típicas de um estádio, centenas de pessoas gritam pelo país, agitam bandeiras, cantam músicas. Uma patriótica histeria, que só vi em estádios de futebol. Meia hora de orgulho nacional. Com o descer da bandeira - as duas ao mesmo tempo, pois nenhuma das nações quer prestar vassalagem ao vizinho - segue-se uma correria até aos portões para cumprimentar os habitantes do outro lado, da outra nação, que uma vez fez parte da Índia. Regressei a Amritsar e ao "Golden Temple" para uma última refeição no salão comunal, uma nova amizade com o Rakesh e um banho sagrado com vista para o templo espelhado na água como forma de despedida de mais um lugar mágico que guardo no sotão das boas memórias.

Terça-feira, Agosto 28, 2007

Zona de conflito

Indecisões e incertezas ocupavam o meu pensamento. A seguir à região do Ladakh só tinha dois caminhos, duas hipóteses. Uma era regressar pelo caminho por onde tinha vindo, a estrada pelas altas montanhas entre Leh e Manali, a outra era seguir por Srinagar e atravessar a problemática zona de Caxemira e completar a volta ao norte da Índia que esta trajectória oferecia. "Seria seguro cruzar a região?" era a questão que levantava. As notícias mais recentes davam conta de alguma agitação. Pensava no que diria a minha família se, por acaso, mencionasse o facto de estar a pôr em hipótese tal percurso. Decidi manter-me silencioso acerca de tal pensamento para não causar alarme nem preocupação. Questionava outros viajantes à cerca da região. Normalmente, eles são os melhores guias de viagem. Ouvi algumas opiniões e relatos favoráveis, mas também algumas más experiências relacionadas com o conflito e a população. Algumas estórias eram tão arrepiantes que me fizeram esquecer o trajecto e começar a planear o regresso a Manali. Parecia tudo decidido até que um dia, num dos meus muitos passeios na região do Ladakh, apanhei um autocarro que seguia de Leh a Kargil, cidade já na região de Caxemira. Ao contrário de todos os outros decorados com Budas ou deuses hindus, este era preenchido por símbolos islâmicos. Das mensagens corânicas nos vidros até ao pequeno altar ao lado do condutor, decorado por flores de plástico e uma imagem do herói da revolução iraniana, o falecido Ayatola Khomeini. Nesse momento, ao ver aquela imagem, acordou em mim o interesse que tenho pelo mundo árabe e por zonas de conflito. Interesse adormecido pelos últimos meses a viver rodeado de cultura budista, onde reina paz e muita tranquilidade. Nesse mesmo instante, decidi seguir até Srinagar e ter a minha própria experiência na região de Caxemira.
Comecei então a descida dos Himalaias num autocarro lotado de israelitas. A esta hora pensava no autocarro e via-o como um grande alvo. Pensava como é que os radicais islâmicos veriam um autocarro assim. Foquei-me na paisagem e esqueci as circunstancias. Dois dias de viagem separam Leh de Srinagar. Mais uma viagem de curvas e contra-curvas, de paisagens belas e dramáticas e de estradas bombardeadas pelos caprichos do tempo. A paisagem continuava acidentada, apesar do cinzento da rocha começar a dar lugar ao verde dos milhares de pinheiros que tornavam tudo tão semelhante aos Alpes suiços.
Cheguei a Srinagar, a capital de Verão do estado de Jammu & Kashmir. Ainda antes de aqui chegar os sinais de conflito já eram visíveis devido ao excessivo número de militares, check-points, barricadas feitas de sacos de areia e metrelhadora montada no topo, tanques e jeeps de guerra.
Cruzei ruas minadas de militares e cheguei ao Dal Lake, uma das atracções turísticas da cidade, perseguido por vendedores e mafiosos. À minha maneira, negociei um quarto numa das muitas casas-barco que preenchem o lago. Palácios flutuantes de estilo victoriano. Confiei no instinto e na cara do sorridente Omar. O negócio não foi fácil, mas no final foi concretizado. Fiquei instalado num desses quartos luxuosos onde até tinha casa de banho privada (um luxo que há muito não estou habituado). Da varanda do barco tinha vista para o lago, para um stand de chicaras (típico barco da região que se assemelha a uma gôndola veneziana) e para uma preenchida de rua de hóteis e restaurantes, onde podia apreciar o frenesim indiano ao final da tarde.
Passeava livremente pela cidade, no início com algum receio que lentamente se dissipava com a calorosa hospitalidade do povo caxemir. Entre inúmeras e repetitivas perguntas de "Como me chamo?", "De onde venho?", "Se sou casado?", " O que faço da vida?" e "Se gosto de Caxemira?" os simpáticos locais atiravam sorrisos e muita boa disposição. Simpatia, por vezes, extendida aos militares que gostavam de posar para a camara fotográfica de arma na mão.
Decidi usufruir o sábado solarengo e visitar extensos jardins criados pelos Mugais. Uma beleza natural com a mão do Homem. Um lugar verde, cheio de paz e harmonia, onde procurei relaxar e perder umas horas num bom livro. Algo impossível de fazer, devido à atenção que provocava nos locais. Voltaram as repetitivas perguntas e a vontade de me fazerem companhia, principalmente quando sabiam que estava a sós. Conheci o Sunim e o seu amigo que começaram como uma breve companhia e, em seguida, raptaram-me para uma visita guiada por outros fantásticos jardins da cidade, incluindo um piquenique. Trocamos palavras, sorrisos e algumas opiniões. Apesar de termos quase a mesma idade, eles assemelhavam-se a crianças quando viam casais de namorados. Riam, observavam com uma inquietação tão normal em rapazes de 12 anos no nosso, meu mundo. Foram uma agradável companhia, mas os nossos caminhos separaram-se quando eles foram fazer uma tour de mirones. Infelizmente, a paz que usufruí nesse dia, num desses jardins foi manchada no dia seguinte por mais um atentado à bomba, que tirou a vida a mais de trinta pessoas. Um lugar de paz marcado pelo sangue e pela luta pela independência. Mais uma vez, parece que a minha estrelinha da sorte voltou a brilhar e me pôs no sitio certo à hora certa.
Regressei ao Alexandra, o barco onde estava instalado. Da varanda, apreciava o corropio da agitada rua e dialogava com o Omar. Jantava com a família, sentado no chão e comendo com as mãos (o luxo victoriano ficava pelos quartos) apreciava o eterno arroz, dal e chapati e bebia água que não sabia de onde vinha. Preocupações que cada vez mais fazem parte do passado. A mãe do Omar era uma deliciosa companhia, apesar de não termos nenhum idioma em comum. Descobri que havia uns "junkies" de "brown sugar" (heroína) na família. Algo que faz parte da cultura da região. Convidaram-me fumar com eles, agi educadamente e recusei, alegando que sou um jovem saudável. Eles abanaram a cabeça ao estilo indiano e seguiram o seu caminho.
Segui em peregrinação às mesquitas locais. Em vez de apanhar o autocarro, preferi seguir a pé, explorar as ruas da cidade que, nesta altura e apesar do excesso de exército, achava seguras, até porque não sabia o que se passava no outro lado da cidade. Percorria ruas, onde usufruia a sinceridade e amizade da população, observava diversos artesãos a trabalhar a sua arte, respondia às eternas e repetitivas perguntas, tirava retratos pedidos. Segui até Hazratbal, a mesquita mais recente, mas pelo caminho, num dos muitos encontros com locais, conheci o Ali. Um homem de sorriso simples e de bom coração. Acompanhou-me no caminho, perguntou-me se aceitava um chá e levou-me a sua casa. Apresentou-me aos seus filhos, trocamos ideias e ele explicou-me a situação de Caxemira. Falou-me do sonho da independência, "inshalla" (que Deus queira) dizia ele sempre que pronunciava a palavra, e da ocupação que a região sofre com a presença do exército indiano, onde a falta de liberdade, alguma perseguição e abuso de poder, por parte dos homens fardados, fazem parte do dia-a-dia. Descobri que a grande riqueza da região é o turismo, riqueza esta que, nos últimos anos, sofreu um grande golpe devido ao conflito e às accoes separatistas. O tempo foi passando e chegou a hora do almoço em que fui convidado a partilhar a sua refeição. Educadamente, desculpou-se pela falta de talheres, alegando a sua tradição, algo que respondi com um despreocupado sorriso. Seguimos com mais conversa e com uma sessão de fotografias da região, onde os seus filhos faziam o papel de promotores turísticos e me mostravam as belezas de Caxemira. Despedi-me com um forte abraço pela hospitalidade e nova amizade. Continuei o caminho até à grande e pálida mesquita, composta por uma enorme cúpula, tendo como pano de fundo as pequenas amostras dos Himalaias. Curioso foi ver um templo cheio de militares a guardá-lo e arame farpado em seu redor. Apreciei a reza e vi as diferenças existentes entre ambos os sexos. Enquanto os homens rezavam no interior da mesquita, as mulheres tinham de o fazer à porta, pois não podiam entrar no templo. "Que tipo de Deus, ou crença, é este/a que faz distinção entre sexos?" perguntava-me a mim próprio.
Fui a outra mesquita, a Jama Masjid. A maior mesquita que alguma vez visitei. Deve abrigar milhares de fiéis, seguidores de Maomé. Também, foi a mais estranha mesquita a nivel arquitectónico que até hoje vi. Em vez da cúpula e do minarete, é composta por quatro torres triangulares que rodeiam um átrio central. Conheci mais gente, troquei palavras e respondi a mais perguntas. A hospitalidade e simpatia deste povo não me parava de surpreender.
O sol estava quase a pôr-se. Decidi regressar, seguir a pé, cruzar as ruas militarizadas com um enorme sorriso. Afinal, tinha sido um dia cheio de encontros felizes.
Antes de partir, e após tanta insistência, cedi ao convite do Omar, com um olho na comissão, de me levar num tour de chicara à volta do Dal Lake. Duas horas, onde apreciei muitas centenas de barcos que povoam o lago, além das caricatas lojas-barco, onde vendedores "a la Marrocos" me chamavam para uma visita à sua loja. Felizmente, a água servia de fronteira protectora a tais investidas.
Apesar de todo frenesim causado pela presença militar e do triste incidente que aconteceu na minha feliz ausência, Caxemira mostrou-se um lugar fascinante. Um pouco pela sua beleza natural mas, principalmente, pela incrível massa humana que, apesar de todos conflitos, tristeza e sangue derramado, ainda tem sorrisos e alegria para partilhar com um simples desconhecido.

Terça-feira, Agosto 21, 2007

Pequeno Tibete

Imensas formações rochosas, cinzentas, tigradas, umas de estranhas formas, outras simplesmente tão íngremes que rompem os céus. Escassa vegetação alimentada por águas glaciares rompem com a monotonia deste deserto de pedra e de extensos blocos de gelo. No meio das montanhas deste estreito vale cheio de paisagens dramáticas corre um rio tumultuoso, agreste, de água gelada e cinzenta que dá o nome ao vale, o vale de Spitti. Um lugar que vive na sombra das grandes montanhas dos Himalaias, um deserto de rocha pouco receptivo a humanos. Rudyard Kipling descreveu-o como um lugar que "seguramente os Deuses vivem aqui, este não é um lugar para o Homem". Mas existem seres humanos em Spitti. Pequenas aldeias budistas de arquitectura tibetana, perdidas no tempo e no espaço do grande vale. Todas elas dominadas por gompas (mosteiros) centenárias onde homens de paz aprendem e espalham a mensagem de Buda. Um pequeno Tibete que, como o grande ocupado país, viveu até recentemente em profundo isolamento. Isolamento ainda hoje possível quando os tortuosos caminhos são cortados pelo extenso e rigoroso inverno. A minha primeira paragem foi no mosteiro de Ki. A maior e mais antiga gompa do vale situada a uns impressionantes 4116 metros e rodeada por um cenário verdadeiramente incrível. Subi as enormes rampas e escadas de acesso para descobrir mais de uma centena de Lamas a jantar em pleno átrio central. Pensei estar a incomodar, pensei voltar para trás, mas fui impedido por enormes sorrisos e uma calorosa recepção. Fui convidado a instalar-me e a partilhar com eles a simples refeição de tsampa - uma sopa feita à base de um cereal chamado "barley" que abunda na região dos Himalaias. De visitante, tornei-me por uns dias num membro do mosteiro. Juntava-me às celebrações diárias - Puja, participava nos afazeres da enorme, tradicional e escura cozinha, onde bebericava a toda a hora chá de manteiga e fiz uma visita a escola monástica. Dias onde respondi a uma enorme lista de perguntas normais para quem desperta tanta atenção, mas também eu aprofundei os meus conhecimentos e arte de meditação. Segui caminho, continuei a explorar o vale, as suas aldeias e os seus inúmeros mosteiros. Cada viagem era uma verdadeira aventura. Em pequenos, decrépitos e lotados autocarros ou à boleia em camiões, seguia pelo único caminho composto por pedras e buracos, ladeado por enormes falésias que terminavam nas águas geladas do rio Spitti. Isto sem qualquer barreira de protecção, separadores ou qualquer dispositivo de segurança. Em Dhankar, uma aldeia vigiada por um mosteiro milenar em perigo de colapso, assisti a uma impressionate puja e fui convidado por uma família local a ser seu hóspede. Foram dias passados com o inevitável chá de manteiga, as ricas sopas de tsampa e muito descanso. Apesar de não ter maneira alguma de comunicar, pois a Mama não falava nada de inglês e eu nada de Bhoti, um idioma similar ao tibetano, íamos comunicando por gestos, sorrisos e boa disposição. Eu lá ia usando o "Julee", uma palavra que tem vários significados como "Olá!", "Adeus", "Por favor" e "Obrigado". Entretanto, o Papa ensinava-me a mugir a cabra para o nosso leite matinal. Eu fui absorvendo as pequenas lições de uma vida simples em harmonia com a natureza. Antes de partir, ainda subi a montanha e banhei-me num lago de água cristalina rodeado por enormes picos de neve. Mais aldeias tão idênticas a esta cruzaram o meu caminho. Sempre com as mesmas características, gente simples e muito afável. O caminho por este pequeno Tibete não ficava por aqui. Apesar de estar a trinta quilómetros desse país, de um outro sonho, não foi altura de atravessar a fronteira. Mesmo que o quisesse seria impossível. Tinha mais chances de receber uma bala chinesa do que um carimbo no passaporte. Voltei para trás, fiz uma escala em Manali onde descansei nas águas termais de Vashisht e segui para outra aventura. Explorar mais o norte da Índia, os Himalaias, mas também fugir às monções, levaram-me para o único local seco nesta altura do ano. Segui rumo ao Ladakh, a região mais a norte deste imenso país e que continua a sua similaridade geográfica e cultural com o ocupado vizinho. Outro lugar remoto, que viveu em total isolamento ate 1974, quando foi aberto ao turismo. Nunca foi colonizado, os ingleses nunca se deram ao trabalho de passar as altas passagens de montanha a mais de 5000 metros de altitude e os indianos nunca mostraram grande interesse até se aperceberem da mina turística que é a região, quando o resto do país está debaixo de fortes e permanentes aguaceiros. Além disso, a única ligação por terra só está aberta entre Julho e Setembro, quando as temperaturas o permitem. No Inverno, o Ladakh está isolado do mundo, com temperaturas que atingem os 30 graus negativos e já chegaram a atingir o record de menos 54 graus. Por estas razões, é uma região onde a cultura tradicional se mantem quase intocável. Fortes núcleos familiares vivem em casas tradicionais com modo de vida também ele tradicional. Vivem do campo no Verão e refugiam-se no lar durante o longo inverno, sobrevivendo com a colheita armazenada durante os meses de sol. Depois só resta mesmo hibernar e esperar que o frio passe e o sol volte a brilhar. Pelas ruas de Leh, a capital da região, vislumbram-se mulheres em roupas quentes, decoradas com bordados e muitas cores. Na cabeça levam um enorme chapéu de pontas arrebitadas e de onde cai os longos e entrançados cabelos. Na mão carregam sinais de muita fé. A roda de reza que giram com o movimento do pulso, enquanto na outra mão levam o colar de contas para não perder o número de orações. Os homens passeiam o gado, enquanto mastigam tabaco e misturam-se com rebanhos de turistas ocidentais que vêm à região em grupos empacotados para fazer longas caminhadas pelas montanhas. Para aqui chegar, foram necessárias muitas horas de viagem por mais estradas ingratas, por vezes, quase impossíveis, onde cruzavam altas e geladas passagens de montanha que me colocavam no clube dos 5000 metros. A paisagem sempre dislumbrante. Relembrava-me o recente vale de Spitti, agreste para o Homem, mas fascinante para o olhar. Para acentuar a sensação de aventura, íamos todo o caminho sempre com o mesmo motorista. Vinte e uma horas sempre a conduzir. Por saber de tal epopeia, descansei nas primeiras horas e as restantes segui ao lado do condutor com um olho na paisagem e o outro no volante ou não fosse acontecer como a outros veiculos que vi lá em baixo caídos da estrada em enormes precipícios. Em Leh, fugindo aos guetos turísticos e dos locais feitos para os visitantes se sentirem em casa, refugiei-me em casa de uma família mulçumana - o Ladakh, apesar de ser maioritariamente budista faz parte do estado de Jammu & Kashmir que é essencialmente mulçumano - e alimentei-me num pequeno estabelecimento tibetano onde me tornei membro honorário. Explorei a região circundante. Mais aldeias, todas com o respectivo mosteiro. Foram tantas que quase virava monge. Para melhor me deslocar, aluguei uma mota, uma Vespa, que me levou além de muitos lugares também a minha adolescência. Cada passeio aumentava a minha fascinação tanto pela cultura budista como também pelos Himalaias. Paisagens cheias de contrastes, dos picos eternamente gelados, a rocha castanha e desértica ao verde da vegetação, aos dourados campos de trigo quase prontos para a colheita. A figura do Dalai Lama presente em todo lado como também as inúmeras e gigantes rodas de reza que espalham mantras e palavras de salvação. Infelizmente, nestes passeios entre paisagens deslumbrantes e gompas cheias de homens de paz, a ladear as estradas, dezenas de acampamentos, quartéis militares lembravam-me que nem tudo é perfeito. Apesar da paz que emana das pessoas há a aproximação geográfica com a problemática zona de Cashmira, a fronteira com o Paquistão e com o gigante chinês, tornam o Ladakh uma zona sensível. Mas, mais do que uns "check-points" onde tive de mostrar o passaporte, nada de mal ocorreu. Apenas mostrava o pequeno livrete de identificação, esboçava um sorriso e com a palavra "Julee" seguia caminho.

Segunda-feira, Julho 30, 2007

Silêncio

Ainda em Bhagsu, na pequena e internacional aldeia, decidi ceder ao conselho de um grande e inspirador amigo. Decidi experimentar, enfrentar um isolamento do mundo. Fazer um retiro, um curso de meditação durante 10 dias, onde o silêncio é absoluto. Só eu e a minha mente, a sós. A técnica chamada de Vipassana é uma das mais antigas técnicas de meditação, que foi redescoberta pelo Buda há mais de 2500 anos. Vipassana significa ver as coisas como elas realmente são. É um processo de auto-observação, onde nos concentramos na respiração natural e nas sensações produzidas pelo corpo. Um processo de purificação que tem como objectivo a libertação do corpo e da mente. Não é uma seita, nem uma religião. Está aberta a todas as raças, culturas e crenças. É uma experiência, um caminho que nos torna mais humanos e felizes.
No início estava rodeado de incertezas. Será que conseguiria sobreviver e ultrapassar tal experiência. O cepticismo era grande mas a curiosidade sobre tal técnica fez-me ingressar no curso. As dores físicas aliadas à incerteza do começo faziam-me amaldiçoar o curso e o meu amigo que, de certa forma, me encorajou a participar em tal experiência. Os dias foram passando, as dores foram atenuando e a mente começou realmente a trabalhar. Ao fim de cinco dias, no final de cada hora de meditação - são 10 horas por dia - sentia-me mais leve, feliz e tranquilo. A vontade de voltar ao hall de meditação crescia. Não sofria ou pensava no passado ou nas incertezas do futuro. Apenas vislumbrava calmamente o presente. Dias de muito trabalho. Apesar de passar o dia sentado, sem me mexer chegava ao final do dia esgotado. Cada dia começava cedo, às quatro da manhã. Havia algumas pausas para as leves refeições e algum descanso. Nos últimos dias, pesadelos, tormentos do passado vinham a superfície. É difícil atingir a paz interior se não resolvermos os problemas passados. Foram dias complicados, mas muito positivos. Chegou o último dia, o silêncio foi quebrado. Todos partilhamos as experiências vividas, as dificuldades apresentadas. Todos nos mostravamos mais felizes, com a cabeça livre. Abandonei o centro com um sorriso de orelha a orelha. Enquanto caminhava de regresso à pequena Bhagsu, observava o mundo ao meu redor com outros olhos. Apetecia-me dar mais ao mundo, partilhar a incrível felicidade que sentia com todos. Foi sem dúvida uma das experiências mais enriquecedoras que alguma vez tive. Aprendi a lidar melhor comigo e com os outros.
Vipassana não é só uma experiência, é também uma forma de vida. Não é fácil seguir este caminho apesar dos benefícios que senti. Por vezes, é tão difícil renegar tanta coisa que sempre fez parte da minha vida. Só estou no início. Lentamente espero prosseguir este caminho que me leva á felicidade, não só minha, mas também a dos outros.

Se quiserem saber mais sobre a meditação Vipassana, podem ver no site www.dhamma.org . É um curso de 10 dias. Existe em todo o mundo e funciona com base em doações.

Terça-feira, Julho 24, 2007

Bhagsu Town

Ao fim de sete meses de viagem, encontrei um lugar onde pude esvaziar a mochila, arrumar as coisas ao meu jeito, realmente instalar-me. Houve outras ocasiões em que o fiz, mas nunca de maneira tão prolongada e intensa.
Após ter chegado a Manali e aos Himalaias, a minha vida tomou outro rumo, um caminho de que não estava a espera. Em vez de ir para sul como intencionava, onde iria fazer trabalho de voluntariado, deixei-me fascinar pelas montanhas e, assim, ficar pelo norte, explorar os altos picos rochosos e também fugir as malditas monções que tanto adiaram o sonho de conhecer Goa e outros locais do sul da Índia.
Deixei Manali em direcção a Dharamsala. Uma outra viagem que para minha surpresa terminou precocemente. Uma noite terminada num velho e estacionado autocarro na estação e segui bem cedo para MacLeod Ganj, local onde vive o Dalai Lama e o governo tibetano em exílio. Em vez de me alojar na confusao de MacLeod, a conselho de uns viajantes, refugiei-me em Bhagsu, uma aldeia na encosta da montanha. Instalado na "upper-Bhagsu", onde carros e motas não chegam e a Coca-Cola chega de burro mas, que obriga a uma íngreme subida pelos tortuosos degraus a cada vez que queria ir até ao centro da aldeia ou até MacLeod Ganj. Em Bhagsu, encontrei um lugar, um refúgio da Índia mas não dos estrangeiros. Apesar de normalmente não gostar de lugares assim, Bhagsu tem uma aura especial. Uma onda criativa paira pela aldeia, o que a torna num centro de encontro para artistas de todos os campos. Todas as noites havia uma "jam session", onde músicos oriundos de todo mundo se juntavam para criar música também ela do mundo. Do violino proveniente de França, a flauta prateada israelita, aos sempre presentes jambes e violas acompanhadas pela sitara e tabla indiana. Uma mistura de sons que unia nações e identidades muito particulares. Outras vezes acontecia uma noite de microfone aberto, onde se partilhavam estórias, se abriam diarios, cantavam-se piadas e mostravam-se com profissionalismo diversas artes circenses. Bolas de contacto misturadas com posições de yoga, fantásticas demonstrações de hulla-hups (arcos), shows de palhaços e o rap/poesia interventiva que alertava para as diferenças sociais e males do planeta. Tudo partilhado por viajantes, exploradores que tornavam cada noite única.
Entretanto, para acentuar mais a mudança na minha vida tive de dizer adeus à Catarina, mais que uma amiga, uma incrível companheira que partilhou comigo grande parte desta viagem e todos os momentos bons e também alguns maus. Uma despedida precoce e difícil.
Enquanto uns chegavam e outros partiam, eu ia ficando. A cada dia formavam-se novas amizades, umas circunstanciais, outras tão marcantes e importantes, que espero que se mantenham para o resto da vida. Para tornar os dias mais interessantes a sós ou com uma das recentes amizades, perdia-me em passeios pela montanha onde se avistava uma queda de água de um cafezinho muito catita, participava em sessões de yoga em terraços que antes serviam como campo de cultivo e que proporcionavam uma vista para o vale verdejante. Ou saía da aldeia e fazia a caminhada até MacLeod Ganj, onde absorvia a cultura tibetana, visitava o templo Tsuglagkhans, onde ouvia as lições do Dalai Lama.
Apreciava a vida local, os imensos refugiados tibetanos que todos os dias chegam à procura da paz perdida, desde a ocupação chinesa e outros peregrinos que vinham ouvir as palavras sábias do simpático lider. Cultura, templos e modo de vida tibetano espalham-se pelas pequenas e movimentadas ruas levando-me ao desconhecido Tibete. Cheiros intensos da culinária desse país misturam-se com sinais e cartazes que manifestam a vontade de uma independência perdida em 1949. Outro sinais pedem a libertação do Panchan Lama, o 2º cargo mais importante na hierarquia tibetana. O mais novo preso político do planeta, com apenas 15 anos. Preso algures no gigante chinês, que ignora a tradição e a cultura deste povo tão pacífico. Destruição cultural, torturas, massacres, violação dos direitos humanos são expostos no museu do Tibete, que deixa chocado qualquer visitante. Apesar de todos os problemas que este povo vive, eles enfrentam a vida com esperança, com um enorme sorriso e sem qualquer ódio ao povo chines.
Ao final da tarde, regressava a Bhagsu para umas nostálgicas lições de capoeira. Aliás, uma das atracções de Bhagsu e a imensidade de cursos que aqui existem. Do yoga ao Reiki, a aprendizagem de inúmeras artes, danças e modos de meditação.
Para quebrar a saudável e alegre monotonia, parti para uma caminhada de três dias até Triund no topo da montanha. Atingi os 3600 metros de altitude. Dormi num abrigo de pedra para pastores em frente a linha da neve, onde quase morri congelado. Mas a paisagem e a experiência tornou cada mazela ganha na caminhada numa experiencia gratificante.
Regresso a Bhagsu, perdi-me nos inúmeros cafés, onde se apreciam mil iguarias, como o "Bhagsu cake", que é uma instituição na aldeia. Voltei a reencontrar amigos e a fazer novas amizades.
Com tão fabuloso ambiente, é difícil dar pelo passar do tempo. Quando reparei, já me encontrava na pequena aldeia há mais de um mês. Tudo era tão perfeito que a vontade de seguir caminho era nula. E assim foi a minha vida em Bhagsu town. Um lugar maravilhoso, onde eu tornei-me num local, onde conhecia toda a gente e cada recanto. Infelizmente, as malditas monções começaram a aproximar-se. Com elas os dias ficaram mais escuros, cinzentos. O nevoeiro começou a subir a encosta e a entrar pela janela e a chuva começou a cair em baldes. Ainda resisti algum tempo a este tempo chato. Ao fim da alguns dias, dei por mim a sonhar com outros destinos, a pensar em me fazer a estrada. Tinha chegado a altura de partir. No último dia, a incerteza de abandonar Bhagsu era grande, mas tinha de partir ou ficava condenado a nunca mais abandonar a pequena aldeia.
No final, rodeado de amigos, despedi-me de tudo e de todos com uma lágrima no canto do olho. Uma lágrima não de tristeza, mas de alegria por tudo que aqui vivi e experimentei. Uma gota de água de saudades de um local que ainda não tinha abandonado.

Sexta-feira, Julho 13, 2007

42 Horas

Dizer Adeus nunca é fácil. Chegou a altura de me despedir dos meus dois amigos, o André e o Rafa. Os dias, semanas que passei com eles, passaram como se tratasse de algumas horas. Eles seguiam o caminho rumo às montanhas para uma curta visita antes de deixarem a Índia. Eu e a Catarina seguiamos para outro destino, outra cidade no Rajasthan. Minutos antes de partirmos, mudamos de ideias. Esquecemos o bilhete que estava no bolso e compramos outro na mesma direcção dos nossos compatriotas. Afinal, não os irei ver durante bastante tempo. Preferi abdicar de um outro destino para poder usufruir da sua boa companhia. A viagem que tinhamos pela frente não era fácil. Apesar de todas as viagens apresentarem alguma dificuldade, esta era de todas a mais longa. Encontravamo-nos em Jaisalmer, nas portas do deserto e pretendiamos chegar a Manali, uma cidade no norte da Índia, na mais alta cadeia montanhosa do planeta, os Himalaias. Cerca de 1250 quilómetros de caminhos, estradas perturbadas que, por vezes, nos levam ao desespero.
Saimos de Jaisalmer eram cinco da tarde. O calor evaporava-se com o aparecimento da lua e nós felizes por continuarmos juntos a explorar este incrível país. Em que país e possível sair do deserto e, num curto espaço de tempo, estar rodeado por picos cobertos de neve. Só mesmo a Índia, a terra de contrastes extremos para proporcionar mudanças geográficas assim. A maratona começou. Mais um autocarro-cama, para meu desagrado. Nunca me habituei àquele espaço fechado, a cheirar a mofo. Mal sabia que as poucas horas de sono seriam preciosas. Chegamos a Jaipur, cidade grande - capita do Rajasthan - eram sete da manhã. Meio ensonados, descobrimos que tinhamos outro autocarro para Dehli em meia hora. Sem comida e quase sem água, regateamos um preço justo com um dos inúmeros condutores de rickshaw e lá seguimos para a estação de autocarro. Isto porque na Índia os autocarros nem sempre terminam a viagem na estação. Outro autocarro, outra viagem. A temperatura começava a subir conforme nos aproximavamos do inferno de Dehli. a fome atormentava o estômago que eu tentava enganar com umas poucas bolachas e chocolates adquiridos numa das inúmeras e curtas paragens. Estavamos a cerca de duas horas de Dehli quando o autocarro parou. A princípio pensava ser mais uma paragem para passageiros. Toda a gente começou a sair do gigante de metal. Afinal o nosso autocarro tinha avariado. Encontravamo-nos no meio do nada, debaixo de um calor intenso, mais uma vez sem água e com o estômago a reclamar nem que fosse por umas poucas bolachas. Esperavamos uma boleia, um autocarro de substituição. Voltamos para dentro do autocarro moribundo como maneira de evitar os fortes raios solares. De repente, toda a gente começou a correr. Ao longe vinha outro autocarro, carregado de almas que transpiravam como uma bica de um qualquer fontanário. Chegamos à porta do enfartado autocarro sem espaço para uma agulha. Nao queriamos ali ficar. Tinhamos de seguir caminho. Sem outra hipótese, seguimos até à traseira do autocarro e subimos para o tejadilho. O topo do transporte era feito de uma chapa prateada. O calor intenso fazia o tejadilho parecer uma grelha de churrasco. Sentados em cima de camisolas, mochilas e livros tentavamos nao cozinhar na quente chapa e agarravamo-nos as estreitas beiras do tejadilho para evitar uma possível e perigosa queda. Não permanecemos muito tempo no topo do veículo. Mas os cerca de 45 minutos passados no tejadilho foram dos mais infernais da minha vida. Sem água, a transpirar sem parar, debaixo de um calor infernal e rodeado por uma neblina de poluição que anunciava a chegada à grande babilónia. Paramos por uns minutos. Crianças vendiam garrafas de água na rua. Desesperados gritavamos por água, atiravamos dinheiro do topo do autocarro e esperavamos em retorno as ditas garrafas. Bebiamos aos litros do preciosos líquido, quase sem respirar, só a pensar em matar a sede que nos fazia sofrer. A fome já era secundária. Alguém dentro do autocarro alertou-nos que havia lugar. Primeiro em pé, depois sentados no chão, trocavamos os primeiros sorrisos. O calor ainda se fazia sentir mas, após a experiência do tejadilho, nada parecia difícil.
Chegamos a Dehli ou aos arredores da grande cidade. O autocarro terminava aí a sua viagem. Eram quatro e meia da tarde. Estavamos a viajar há cerca de 24 horas e ainda tinhamos um longo caminho pela frente. Precisavamos de chegar à estação de Dehli. Gananciosos condutores de rickshaw cobravam preços exorbitantes pela boleia. O cansaço, a exaustão da longa viagem aliada à fome de quase nada ter comido num dia inteiro levavam a paciência ao seu limite. Os sorrisos afáveis, que geralmente trocavamos, foram substituídos por momentos e palavras menos agradáveis. Conseguimos arranjar um condutor menos ganancioso, mais justo. Subimos os quatro para as costas do pequeno triciclo motorizado carregado com as nossas bagagens. Atravessamos o incrível e caótico trânsito da capital indiana. Uma cidade que abriga mais de 13 milhões de pessoas., sem estar preparada para tal. Imaginem o trânsito do Porto multiplicado por mil. Têm assim uma ideia do que é Dehli. Na estação descobrimos que o autocarro seguinte para Manali partia em quinze minutos. Mais uma corrida, uma instantânea paragem no único estabelecimento disponível. Uma casa de hamburgueres de arcos dourados, igual a tantas outras neste planeta. Eu, que não aprecio este tipo de comida, cedi à fome e devorei a pequena sandwich com apetite de dragão. Apanhamos o autocarro, paramos num outro lugar para troca de passageiros. Trabalhadores, homens de família tentavam fazer umas rupias extra. Vendiam gelados e refrigerantes. Turistas esperavam pela partida. Um dos ajudantes do autocarro queria cobrar-me um preço extra pela mochila. Indignado, irritado, cansado e desesperado decidi nao ceder. Discuti, pedi recibo e acabei em cima do autocarro a discutir ainda mais e quase a chegar a confronto. Enquanto isso, os meus companheiros de viagem e os restantes turistas divertiam-se com o circo que eu tinha montado. Não sei se foi só o cansaço da viagem ou também a falta de compreensão da realidade indiana. Hoje, quando olho para este episódio, vejo-o com amargura, arrependimento e uma certa tristeza. No final, não pagamos nada mas, hoje, tento redimir-me e sempre dou uma ajuda quando os ajudantes do autocarro me estendem a mão.
Seguimos viagem rumo aos Himalaias. Mais uma noite sentado num rígido banco mas, para mim, sempre mais confortável que as torturantes camas. Cedi ao cansaço e dormi grande parte da viagem. Quando acordei, deparei-me com um cenário completamente diferente. A estrada tortuosa subia e contornava enormes montanhas. Pequenas aldeias de casas simples, habitadas por pessoas com feições nunca antes vistas, seguravam as encostas dos picos rochosos. Falésias dividiam extensos e profundos vales. Pinheiros altos e esguios completavam a paisagem. À beira da estrada, plantas selvagens de cinco pontas, condenadas noutros mundos, faziam sonhar os mochileiros que enchiam o estridente autocarro. Finalmente, após 42 horas, chegamos a Manali. Uma viagem tortuosa e desesperante, mas que no final, quando avistei os picos gelados, soube que valera a pena. Refugiamo-nos na velha Manali, seguindo o conselho de um grande amigo, um português que tem o seu coração na Índia. Ao nosso grupo, juntou-se um australiano e partilhamos uma casa com uma vista sensacional. Os últimos dias juntos partilhamos ao máximo. Banhos gelados nos rios provenientes dos Himalaias, tardes enfumaradas com a colheita especial da região e um estômago empanturrado de deliciosos bolos de uma pastelaria alemã.
Ao final de alguns dias, chegou a inevitável partida. Fortes abraços, alguma tristeza, mas a certeza de um bom tempo passado juntos. Promessas de nos encontrarmos mais tarde foram feitas. Aqui, ali, possivelmente na cidade que temos em comum, onde nos conhecemos e onde nasceu esta grande amizade.

Quinta-feira, Julho 05, 2007

Vida no Deserto

O percurso nas terras quentes e áridas do Rajasthan continua. A amizade e as saudades são o verdadeiro motor para mais uma longa viagem de autocarro. Udaipur é a cidade que se segue. Outra cidade, outro lago rodeado por uma outra cidade branca, ornamentada por diversos palácios. O mais famoso é o Lake Palace, um palácio flutuante situado no lago Pichola. Uma maravilha arquitectónica, que hoje funciona como um hotel para as classes mais priveligiadas. Foi neste palácio que se filmou uma das muitas aventuras do agente secreto 007, onde na estória da película, o palácio é habitado exclusivamente por belas mulheres. Não tive a sorte de encontrar tal paraiso mas, encontrei amigos, dois portugueses. O Rafa e o André que, como eu, deixaram Portugal para viver no frio escocês e percorrer o mundo.
Dias passados a pôr a conversa em dia, a reviver momentos passados, a planear próximos destinos e a flutuar nas nuvens de fumo que o mestre André tão bem sabe confeccionar.
Passeamos pela cidade, não tanto como gostaria, pois havia saudades a matar e a condicionante física também não era a melhor. Problemas gástricos tão comuns em países como este, onde a higiene não é a principal preocupação. Após um dia de descanso, rodeado por filmes entre os quais a aventura do agente secreto filmada na cidade, foi tempo de partir. Outra noite em v
iagem, outro autocarro cheio e pouco confortável. Aterramos em Bundi um pouco desnorteados para uma curta paragem. Visitamos um palácio abandonado, dizem, assombrado. A única assombração que consegui vislumbrar foram os enormes macacos que demonstravam a sua agressividade mostrando os seus brancos e afiados dentes. Matavamos o tempo num saudoso jogo de king e com um banglassi - uma bebida de iogurte misturada com uma planta que tem um efeito bastante relaxante.
Mais um nascer do sol, um rápido despertar e uma corrida para outro autocarro. A causa desta maratona é que os meus dois amigos estavam prestes a terminar a viagem neste país e, por isso, havia que correr um pouco para poder visitar alguns dos destinos que eles escolheram
.
Passamos por Puskar, um regresso a um local que deixou saudades. Infelizmente, a Maria e a Jaya tinham partido para o Nepal. Hospedados noutro local, que não oferecia a amizade e a experiência da casa da Maria, mas que tinha uma refrescante piscina que nos salvava dos cerca de 40 graus que se faziam sentir. Um dos motivos de aqui termos vindo, foi para a compra de presentes para os que estão em casa. Eles vieram às compras, eu que ainda ficarei na Índia por bastante tempo, limitei-me a apreciar a vida local e a arte de regatear do André, do Rafa e da Catarina. Aquisições feitas, mala cheia e uma última visita ao lago sagrado, foi tempo de mais uma jorna
da, outra longa viagem de autocarro mas, desta vez, deitados.
O sleeper-
bus, uma cama sobre rodas que e para alguns um paraíso e para outros, como eu, uma tortura. Tentar dormir com curvas e contra-curvas, intervaladas por saltos e deslizando de um lado para o outro, não é para todos. Para tentar adormecer o André lá preparava um dos seus cozinhados enfumarados.
Próximo destino, Jaisalmer.O portão de entrada para o deserto do Thar. Uma cidade que viveu o seu apogeu no tempo em que as caravanas levavam especiarias e seda da Índia para a Asia Central. Com o desenvolvimento dos meios marítimos e a criação do porto de Mumbai, a cidade perdeu importância e hoje vive para o deserto como meio de sobrevivência, exportando a imagem e o exotismo do mar de areia. Apesar deste declínio mercantil, a cidade espelha bem um passado abundante em riqueza.
Um gigantesco castelo dourado no topo do monte Trikuta, torna a cidade na cidade do ouro, que contrasta com o forte azul do céu e se mistura com as cores do Thar. É o melhor exemplo do tempo em que as rotas de m
ercadorias passavam por aqui. Dentro do forte, pequenas e estreitas ruas, hoje ainda habitadas, Havelis - casa super trabalhadas- que pertenceram a ricos comerciantes, inúmeros templos e um lindo palácio também ele todo trabalhado e construído em pedra-areia.
Os habitantes, que antes trabalhavam para os Maharajas, hoje vivem do turismo, das inúmeras pousadas, restaurantes, lojas de roupa e souvenirs que se acotovelam nas estreitas arterias.
Passeamos pela cidade enquanto era possível. O extremo calor, cerca de 45 graus, tornavam a visita à cidade numa missão quase impossível. Refugiados na sombra de um dos inúmeros restaurantes preparamos a nossa expedição ao Thar. Três dias de vida no deserto.
Na manhã seguinte, partimos rumo ao mar de areia. Apanhamos boleia de um indiano de bigode farfalhudo que conduzia o jeep sempre a olhar para o lado, a trocar conversa e a mascar pedaços de ópio. Felizmente, saimos do jeep ilesos.
Chegamos ao início do deserto, o Tiger e o Piru - os nossos guias - já estavam à nossa espera com os camelos prontos para o início da expedição. Subi para cima do Arafat - foi assim que apelidei o meu animal - e seguimos caminho.
O deserto do Thar, longe do que imaginava, é escasso em grandes e alaranjadas dunas tipicas do Sahara. Em vez das montanhas de areia, é um deserto plano, árido onde alguma vegetação tenta sobreviver à longa seca e chegar com vida à chegada das monções. Curioso é que, na altura das chuvas, o deserto torna-se um lugar fértil para o planteio de melancias. É este o fruto que garante a subsistência da população do Thar durante os meses de seca.
Os dias passavam connosco em cima do camelo, ao ritmo das suas calmas passadas, a observar o horizonte, perdidos em pensamentos, a sobreviver ao calor intenso acompanhado por um vento quente e seco que pouco ajudava a suportar o inferno que o Thar se transformava nas horas em que o sol se encontrava a pique.
Por volta da hora de almoço, paravamos debaixo de uma sombra. O Tiger e o Piru preparavam o almoço, enquanto
nós nos perdiamos em mais um jogo de cartas. Chapatis (pao chato indiano), arroz e dal (lentilhas) preparadas com carinho pelos nossos guias, enchiam o pequeno estômago. Dormitavamos debaixo da sombra à espera que o calor passasse. Ao final de algumas horas, desmontavamos o acampamento, subiamos para as bossas do camelo e continuavamos a peregrinação até um oásis de dunas amarelas, onde iriamos passar a noite. Procurava-se lenha, fazia-se uma fogueira e esperava-se pelo jantar. Após este, o Tiger animava as noites com algumas cantorias e estórias do deserto. Algumas dessas estórias eram de arrepiar. Como a de uns turistas que ele trouxe para o deserto que o maltrataram e até chegaram a bater-lhe. Pobre do homem, uma pessoa simples, sem grandes sonhos na vida, que trabalha arduamente, raramente vê a familia que vive a mais de 100km de Jaisalmer e ganha 1900 rps por mês, cerca de 35 euros. Vida de pessoas como nós que, mais uma vez, me fazem pensar na sorte que tenho.
As noites silenciosas, dormidas ao relento debaixo de um tecto cheio de estrelas brancas como pérolas que me faziam sonhar em paz e despertar para um novo dia cheio de energia.
Os três dias foram assim passados. A percorrer um nicho do grande Thar, a passar por pequenas aldeias que, para alegria do André, vendiam Coca-Cola.
De sombra em sombra para fugir do calor, de duna em duna para passar a noite. Os dias foram passando e nós experimentando um pouco, muito superficialmente, a vida no deserto. Uma vida que não é para todos, certamente
não é para mim. O Tiger e o Piru, pelo contrário, nao a trocam por nada deste mundo. Diziam que preferem a paz, tranquilidade e simplicidade do deserto ao caos, stress e infelicidade que eles têm associado à vida nas grandes cidades. Apesar das dificuldades, o cenário e a vida desta gente sempre nos surpreendia. Como é possivel viver sem nada, mas sempre com um sorriso de orelha a orelha.
O Tiger dizia-nos "Camel College, full of knowledge". Mais uma lição desta viagem, desta vida que não é facil para ninguém, mas que é mais difícil para uns do que para outros. Lições de uma outra escola, o colégio do deserto, a escola da sobrevivência que é a vida para a maioria da população indiana, seja ela no deserto, na cidade ou na montanha. Vidas diferentes com o mesmo fim, sobreviver.