Cruzei a fronteira. Deixava a Índia que me acolheu durante cinco meses e segui para o Nepal. Ao atravessar a fronteira, entrei num género de divórcio com a escrita. Só assim se pode justificar o tamanho atraso deste último relato de viagem pela Ásia. No início por preguiça e depois por falta de tempo fui adiando estas crónicas. Ao fim de algum tempo, é difícil retomar o caminho, pôr tudo no papel e relembrar o intenso mês no país que abriga o mais alto pico do mundo. Após esta breve desculpa, que serve apenas para limpar a consciência, de que tinha de escrever e não me apetecia, deixei o tempo passar estas aventuras que descrevo a seguir comemorarem dois anos e uns meses.
Deixei o Templo Dourado bem cedo, de casa às costas e apanhei um rickshaw até à estação ferroviária. Ao contrário da imagem que tive ao chegar a Amritsar, as ruas cheias de pessoas a dormir, foi substituída por um corrupio carregado de cores e cheiros intensos. O calor também ele subia de mão dada com a humidade. Na estação, bebi um “chai” com bolachas forrando o estômago. Preparei o meu canto onde iria passar quase 30 horas onde iria percorrer a parte norte da Índia, de este para oeste, praticamente ligando a fronteira do Paquistão até à do Nepal.
Segui no Kir Express, a carruagem encontrava-se praticamente vazia, algo estranho num país densamente povoado onde a solidão é quase impossível. De estação em estação, as carruagens foram enchendo de indivíduos e de muitas famílias que preenchiam os lugares e todos espaços disponíveis com os seus corpos escuros e esguios, que contrastavam com as cores vivas das largas vestimentas, com trouxas, sacos e bagagens. As mulheres sentavam-se no canto à janela gradeada como se estivessem presas, longe de olhares indiscretos e do corredor de passagem que poderia provocar algum contacto indesejado, enquanto os homens com aquele olhar questionante que a curiosidade despertava ao verem um estrangeiro vestido da mesma forma com panos sujos caídos a volta da cinta, acenavam com a cabeça aprovando a minha escolha e aos poucos iam satisfazendo a sua curiosidade com mil perguntas. Pelo meio, vendedores percorriam os corredores da grande minhoca de metal vendendo tudo que podiam. Do típico “chai”, chamuças, saris, brinquedos e lanternas inquebráveis que ele afirmava serem impossíveis de quebrar. Atirava-as uma, duas, três vezes ao chão e depois demonstrava que elas continuavam a funcionar. Até que uma vez, largou umas das inquebráveis lanternas no chão e ela escangalhou-se com o choque. Foi risada total, o que ainda aumentou ainda mais a cumplicidade com os meus parceiros de viagem. Vasco da Gama foi recordado mal souberam que era Português. Contavam-me sobre as suas vidas e explicavam-me o desastre das monções, isto enquanto espreitávamos pela janela e víamos uma paisagem em movimento, onde a água chegava à linha ferroviária e as casas encontravam-se submersas onde só se via os telhados de colmo.
Enquanto isso relembrava experiências marcantes, dias intensos que fizeram parte desta viagem, isto porque com o deslizar da carruagem pelos carris de metal prateado, sentia o tempo escorrer-me pelos dedos como de água se tratasse, pois pressentia que a viagem estava perto do final. Ainda havia um mês e meio para o cair do pano, mas para quem já estava a viajar há muito este tempo, parecia muito escasso. Agora era outro destino, um outro país, mais um para uma lista que se vai revelando extensa.
Viajar é a melhor escola. Uma escola prática baseada na experimentação de culturas e rituais, na absorção de idiomas, no vislumbrar das mais incríveis e heterogéneas paisagens naturais ou feitas pelo Homem e perdida em mil cheiros e paladares. É também a escola da simplicidade e do respeito pelos outros, onde as experiências valem bem mais que bens materiais e onde as amizades não têm preço.
Após as tais quase 24 horas de viagem, cheguei a Gorakpur e procurei logo a ligação para Sunali, o último lugar antes da fronteira. Arranjei um autocarro que percorria a distancia. Mais um veículo decrépito, apertado, cheio de pessoas, animais e pó. O calor era tanto que era impossível fechar as janelas, ainda assim escorria suor por todos os poros do meu corpo e para piorar o desconforto tinha aquele pó laranja proveniente do caminho esburacado que percorríamos a colar-se à pele. Cheguei deixando a Índia apesar da mudança de cor que levou os fiscais de fronteira Indianos a olhar duas vezes para o passaporte.
Da fronteira até Pokhara
Entrei no Nepal onde ganhei mais um carimbo no recheado passaporte, o que me dá um extremo gozo folhear a cada cruzar de fronteira. Além do típico carimbo, ganhei um outro, um visto físico com o deslizar das escadas da traseira do autocarro que parou, infelizmente, no indicador da mão direita. Visto este que me impediu de fotografar por uns dias. Enquanto desesperava de dores e sentia o dedo a inchar, procurava um veículo que me levasse ao próximo destino. Após algum desnorte provocado pelo mínimo, mas doloroso acidente, pelo calor e pela confusão tão típica de qualquer fronteira movimentada, que lembra a hora de ponta num túnel qualquer, num metro qualquer, de qualquer megacidade, segui caminho numa sauna metálica sobre rodas até ao lugar que há cerca de 2500 anos viu nascer o príncipe Siddartha que mais tarde viria a ser conhecido simplesmente por Buda. Um outro destino ligado à história deste modo de vida que é o Budismo. Até lá chegar, sentado no lugar tipicamente ocupado pelo morto, cruzei pequenas aldeias, campos verdes recortados por extensas fileiras de árvores de manga e apreciei o quotidiano da população que até ao momento não revelava qualquer diferença do povo do outro lado da fronteira. Entretanto, tentava não perder a minha audição com as tentativas ensurdecedoras provocadas pela irritante buzina que o condutor accionava cada vez que via uma mosca no horizonte. E elas pareciam ser mais que muitas.
Cheguei a Lumbini e à única rua de pó que compõe o local. Procurei descansar após mais de 30 horas de viagem e arranjar uma refeição que se revelou cara e pouco aprazível. Ganhei um companheiro de quarto, um estudante inglês, que aproveitou a pausa escolar para esticar as pernas e conhecer um pouco mais do planeta em que habitamos. Juntos partilhamos o pequeno-almoço e de bicicleta exploramos o complexo budista. Ao contrário de Bodhgaya onde o Buda se tornou Buda, Lumbini é espaçoso, verde e calmo mas no que tem em paz, perde para a cidade indiana em atmosfera que abunda em cada recanto. Percorri templos de várias nacionalidades, uns já prontos, outros ainda em fase de construção. Parece que o projecto para este pequeno lugar é torna-lo num lugar de peregrinação tão famoso como Bodhgaya ou Kushinagar onde o iluminado deu o seu último suspiro. Com o calor das monções a fazer-se sentir, refugiei-me à sombra de uma grande estupa, onde passei uma boa parte da tarde enquanto bebericava a minha primeira Everest – umas das marcas de cerveja do Nepal. Voltamos à pousada, despedimo-nos após a habitual troca de e-mails. Eu mais para norte e o jovem inglês para a Índia onde apanharia o voo de regresso a casa. Pensamento este que tentei esquecer pois eu também já não tinha assim tanto tempo para explorar este continente.
Por ver o tempo a escassear, decidi continuar o caminho de forma a poder aproveitar e conhecer mais alguns locais deste país cheio de picos branqueados pelas neves eternas, se bem que até ao momento não tivesse avistado nenhum.
O próximo destino era Tansen, uma pequena vila que se destaca pela sua arquitectura Newari, a arquitectura típica do Nepal. Uma viagem curta e sem sobressaltos levou-me até lá. Talvez como uma amostra da pacatez que também iria encontrar por lá.
Ruas desnorteadas. Algumas com a tal arquitectura, outras nem tanto parecendo que lentamente, como tudo neste país, vão sendo substituídas por casas de tijolo e cimento como um qualquer lugar neste planeta onde não existe lugar para varandas de madeira trabalhada lembrando o templo que tinha acabado de passar ao início da rua. Praticamente todas elas terminam numa pequena pracita com um pequeno edifício octogonal que serve de ponto de encontro, de abrigo nos dias mais quentes, onde também se vende algumas frutas. Entre passeios pelas ruelas tortas, estreitas e íngremes, fui subindo o monte que ladeava a povoação e que fazia de pano de fundo verde de tão recheado de pinheiros que se encontrava. Um cenário que me remetia para a minha infância no Minho português. Pelo caminho encontrava alguns locais, cumprimentava-os “Namaste!” e trocava algumas palavras de Nepali ou pelo menos tentava, visto que o meu vocabulário não era assim tão extenso. Encontrei uma estátua do Buda, nada de extraordinária. Mas um Buda é sempre um Buda. Tentei ver os picos da cadeia dos Himalaias, coisa que se revelou impossível devido às nuvens sempre constantes no período das monções.
Comecei a descer a encosta e reparei num cenário incrível. Centenas de campos de arroz em socalcos verdes e encharcados como manda a lei. Não conseguia acreditar! Há tanto tempo que sonhava com esta imagem que até hoje me tinha sido negada. Da China ao Sudoeste Asiático, dada a altura do ano só tinha visto socalcos secos, sem vida. Uma imagem tão típica ilustrada em inúmeros postais, livros e filmes que eu em 10 meses não tinha conseguido admirar e que, de repente, quanto menos esperava se encontrava bem ali à minha frente com todo o seu esplendor. Desci o monte quase a correr em direcção aos verdes degraus, cruzei-me com famílias que se banhavam na água fria das montanhas e observei um homem a vistoriar os canais que levavam água de socalco em socalco até ao final da encosta encharcando cada campo de arroz num simples e engenhoso sistema de rega. No regresso ao centro de Tansen onde estava hospedado passei por uma piscina pública. Outro engenhoso sistema onde a água provinha de um pequeno fontanário de pedra que enchia a grande banheira também ela de pedra que depois de cheia seguia o seu caminho para a via pública lavando o passeio e a rua. Muito simples, mas muito funcional. A água era gelada o que deu apenas para umas curtas braçadas para alegria dos locais. Mais uma vez era o único estrangeiro e, até ao momento, só tinha encontrado o tal estudante inglês, que me tinha dito na sua volta pelo Nepal não ter encontrado muita gente como nós a viajar. Algo que o disse com um pouco de tristeza, o que para mim era na verdade algo de muito positivo, pois significava que estava longe da “gringo track” ou seja dos caminhos percorridos pelas hordas de turistas que tanto me afugentam. Quando a hipotermia era quase atingida, procurei um lugar ao sol, enquanto respondia a inúmeras perguntas que me eram feitas pelos curiosos locais. Regressei ao meu solitário quarto de hotel para fazer o saco e partir para o próximo destino.
Pokhara
O destino que se segue foi o primeiro lugar que me foi recomendado no Nepal, talvez porque os visitantes a este país só costumam ir a Pokhara e à capital, Kathmandu. Razão que explica a feliz falta de turistas noutros locais. Isto porque estas duas cidades são o centro de partida para as caminhadas e expedições aos famosos picos do Annapurna e do Everest respectivamente.
O cenário era deslumbrante. Enormes encostas cheias de campos de arroz como os que finalmente tinha visto em Tansen. Sentado na última fila do autocarro que como muitos outros caía de podre, com uma condução muito perigosa e irresponsável em estradas de curva e contra-curva, ladeadas por escarpas vertiginosas e sem protecção, onde da janela não avistava a estrada apenas o precipício. O condutor desbravava a estrada a alta velocidade, fazendo os pneus chiar pelo meio da música altíssima que, presumo eu, celebrava deuses que nos protegessem do risco de acidente. Tentei relaxar, abstrair-me de tal perigo e concentrar-me na paisagem. Respirei fundo, desviei o pensamento, tentei adormecer – táctica esta que em momentos semelhantes já deu resultado – mas tudo sem o fruto desejado. Olhei em meu redor para os outros passageiros que, impávidos e serenos, pareciam não se preocupar. Não eram só todas estas condições que me punham nervoso, mas também as estatísticas arrepiantes de mortes nas estradas do Nepal que levam muitos guias a aconselhar se possível a não utilizar este tipo de transporte. Algo que não me tinha preocupado até ao momento, mas que naquela altura tal conselho me passou pela cabeça. De repente, sinto o pneu traseiro a embater numa pedra, talvez caída de uma das moribundas encostas, perdendo o autocarro o rumo e dirigindo-se para o abismo onde eu numa fracção de segundo vislumbrei o final de tudo. O condutor habilmente guinou o volante e conseguiu parar o autocarro que ficou no meio da estrada com uma roda em pleno contacto com o ar. Eu ainda estava recuperar do susto enquanto os restantes passageiros gritavam palavras indecifráveis ao condutor. Ele lá se encolheu atrás do volante e pôs fim à aventurosa condução. A partir desse momento, pude apreciar a paisagem apesar do susto que durante dias habitou o meu pensamento.
Refugiei-me mais a norte, descobri uma pequena pousada entre campos de arroz com vista para o lago. Era um sítio pacífico e aprazível, um lugar perfeito para uma longa e repousante estadia, apesar de nessa altura não estar a pensar em tal coisa. Mais uma Mama e a sua filha adoptiva que fizeram logo sentir-me como se estivesse em casa. A chuva não parava de cair. As monções não tinham fim e o céu parecia desabar em cima de nós. Entre chuvadas, deliciava-me com longas braçadas no lago de água límpida com vista privilegiada para os picos pintados do branco eterno. Quando a água insistia em cair, folheava páginas d
os muitos livros da extensa biblioteca que a Mama tinha, deitado numa das redes debaixo do alpendre com vista para o lago. Arranjei um pitoresco restaurante onde fazia as minhas refeições e assim o tempo ia passando. Ganhava raízes e perdia a vontade de abandonar Pokhara. À noite, do alpendre, via os trovões a iluminarem os céus, a despejarem a sua raiva agora nas águas turbulentas do Phewa Tal enquanto adormecia a mente com doses de THC na companhia da Agnes, uma italiana que conheci na Índia e que, por obra do destino, voltei a encontrar neste pequeno paraíso. Os reencontros parecem não ter ficado por aqui. Numa manhã, durante o pequeno almoço no tal pitoresco restaurante, chamado de “My Beautiful Restaurant”, para meu espanto, estava uma grande amiga. A Tine, uma Belga que também conheci na Índia nos tempos em que me encontrava em Bhagsu. Ela dirige o seu próprio projecto de ajuda a crianças das favelas de Pokhara. Sabia que vivia no Nepal não pensei que fosse nesta cidade, frequentasse o mesmo restaurante e a sua casa fosse a dois terraços de campos de arroz acima do local onde eu pernoitava. Felizes coincidências que me lembram como o mundo é realmente pequeno. Após uma ligeira refeição ficou acertado que iria visitar a favela, ver o seu trabalho e realizar algumas actividades com as crianças. Actividades do género das que fazia em Puerto Maldonado, Peru, quando fazia o voluntariado com uma ONG local.
Dias mais tarde, encontrei-me com a Tine bem longe do Lakeside, repleto de turistas. Entramos por uma das muitas quelhas esburacadas e poeirentas que constituem as veias da favela. Por essas veias correm água suja, detritos e amontoam-se plásticos por todo lado pois estes recusa-se a desaparecer e insistem em fazer parte da paisagem. No centro de estudo montado pela Tine, num pequeno barracão de madeira sem janelas com um pouco de luz proveniente da única lâmpada existente, participei nas aulas de apoio que a Tine dá às crianças para terem um melhor desempenho escolar e não seguir maus caminhos. Com bolas de malabarismo e
alguns truques proporcionei uma tarde diferente. Excitados, soltavam gritos de alegria, batiam palmas por cada truque que fazia. Depois passei a vez, ensinei-os a fazer as suas bolas e começarem a treinar. Foi uma pequena experiência que em muito me lembrou os dias de Palma Real, Peru.
Os dias iam passando e eu continuava em Pokhara. Sentia-me em casa e cada vez conhecia mais gente.
Encontro com um Conterrâneo
Uma certa noite entrei no local de sempre para a minha refeição quando a Tine me apresentou o Zé Granja, um português que como eu andava a viajar e tinha acabado de chegar a Pokhara. Foi empatia à primeira. Mal fomos apresentados, passamos a noite a dialogar na língua materna. Partilhamos as nossas vidas, as nossas viagens. Ele descreveu-me o tedioso trabalho de escritório que tinha em Lisboa, que decidiu largar juntamente com a namorada de anos para fazer esta viagem. Uma noite inteira de conversa que só acabou quando o céu desabou em enormes massas de água. Com o Zé conheci uma canadiana, a Maria que pernoitava na mesma pousada que viajava há quase dois anos.
Na manhã seguinte encontrei-me na pousada onde o Zé estava instalado para tomarmos um pequeno-almoço tardio, repleto de fruta e iogurte. Decidimos nesse momento subir a montanha e ir a Sarankot, uma pequena aldeia onde se podia ver uma enorme cadeia de picos gelados. Feitos os preparativos, queijo de yak, tostas e uma garrafa de Royal Stag, o whisky indiano, partimos para uma íngreme caminhada de 3 horas, com muitas paragens à mistura para relaxar e inspirar a mente enquanto apreciávamos a paisagem. As vistas eram incríveis, mas quando chegamos a Sarankot já estávamos envolvidos por nuvens que nos recusavam qualquer vislumbrar da paisagem circundante. Restou-nos confraternizar no quarto ao sabor das bolachas de água e sal com o queijo de yak empurrado pelo whisky directamente do gargalo.
Ao jantar, Dal Bhat e mais água “escocesa” pincelada por umas ervas aromáticas dos Himalaias recheavam o alegre convívio. Na manhã seguinte a vista era nula, só uma imensa neblina que nos emoldurava.
Ainda tentamos avistar algo do ponto de observação, mas o melhor que conseguimos foi ver o arame farpado e os guardas armados que guardavam a antena de comunicação de possíveis atentados por parte dos maoístas.
Como gostamos da Mama e das suas três filhotas, decidimos relaxar e ficar mais uma noite regada a cerveja, salsa e uns jogos de cartas enquanto discutíamos a presente época do futebol português sendo, o Zé do benfica e eu um Dragão azul.
Na manhã seguinte, o céu continuava ofusco e cinzento e por isso decidimos regressar a Pokhara sem termos visto a cadeia de picos gelados acima dos 8000 metros de altitude. Para tornar a descida mais intensa, resolvemos seguir caminhos alternativos que nos levaram a encharcados campos de arroz. Uma descida radical, cheia de quedas aparatosas mas inofensivas, com os pés completamente encharcados. Chegados a Pokhara, após uma almoçarada no local do costume, perdemo-nos no Lakeside na companhia da Dana Maria. Uma californiana também ela vizinha do Zé. Juntos percorremos bares entre conversas, copos e jogos de bilhar. Começamos a formar um bom grupo de amigos.
A noite de lua cheia estava prestes a chegar, o Zé, a Maria, a Dana e eu resolvemos organizar tal acontecimento. Convidamos alguns amigos locais e no terraço da pousada deles, debruçado sobre as águas do lago, celebramos esta ocasião com bebidas e plantas engraçadas que tanto abundam na região. Infelizmente as misturas por vezes dão mal resultado e acabei por “redecorar” o quarto do Zé sem qualquer timidez.
Nesta altura, já começava a sentir uma aproximação especial da Maria. Eu também sentia algo mas tinha a minha antiga parceira de viagem ainda no coração e na mente, apesar de as coisas não serem mais o que um dia foram.
Uma manhã acordei em alvoroço, confuso nos sentimentos e nas vontades. Recomeçava a pensar no regresso à Europa e na pouca vontade que tinha de voltar. Estava tão bem lá. Só me apetecia desaparecer do mapa e ficar perdido algures neste continente que tanto me apaixonou. Estava triste, desinspirado, sem rumo. Andava a sofrer precocemente com o regresso a casa. Escrevi à minha mãe, pedi-lhe conselhos, orientação. Ajuda que a minha progenitora não me negou. Leu com atenção a minha tormenta. Tentou acalmar-me, dar-me algum conforto. Maria, Zé e Dana deram-me apoio pois percebiam o que eu estava a passar. Os três também passaram pelo mesmo e, no final, decidiram perder o avião e ficar. Também gostaria de fazer o mesmo, mas por motivos financeiros e com outros projectos em mente, comecei a mentalizar-me que o paraíso já estava perto do fim.
Perante tantas indecisões a Maria decidiu agilizar e começou à procura do próximo destino. Decidimos os quatro ir juntos para Bandipur, uma pequena vila perto da estrada entre Pokhara e Kathmandu, onde a arquitectura Newari se mostra em todo o seu esplendor.
Ao fim de três semanas voltei a pôr os pés num autocarro. Não que tivesse saudades até porque a minha última viagem foi um pouco assustadora. O autocarro estava cheio e assim tivemos de viajar no tejadilho onde podíamos apreciar melhor a paisagem e longe do efeito de estufa que se fazia sentir lá dentro. Confraternizamos com os restantes ”surfistas de telhado”. Mesmo com a paisagem em movimento, não deixava de reparar nos extensos campos agrícolas, casas degradadas ou inacabadas, tristes e frias, vacas a deambular na via pública e caras felizes apesar das muitas dificuldades sentidas pela maioria da população.
Antes de chegarmos a Bandipur, uma paragem para mais um “chai” e mais um tejadilho. Este era de uma mini-van, por isso tivemos que viajar apertados entre trouxas, sacos e corpos esguios de jovens nepaleses. Sentado na borda do tejadilho, a Maria agarrou-me para eu não cair e não me largou mais até chegarmos ao destino. A atmosfera entre nós, começava a tornar-se mais intima. Enquanto seguíamos entre curva e contra-curva nas ombreiras das estradas ladeadas por íngremes falésias preenchidas por um vegetação abundante imaginava-mo-nos no lugar que gostaríamos de arranjar para os próximos dias. Uma casa, de preferência, com cozinha onde pudéssemos fazer as nossas refeições.
Chegados a Bandipur, as meninas ficaram a guardar os sacos vigiadas por um bando de curiosos enquanto eu e o Zé fomos à procura de um lugar para ficar. Mal começamos a percorrer a pequena vila fiquei maravilhado pela sua pacatez e arquitectura Newari tão bem preservada. Parecia uma cidade museu. As casas todas em pedra rematadas por colunas, varandas e janelas de cores escuras esculpidas com motivos geométricos e figuras que lembravam os deuses. Encontramos um pequeno quarto em casa de um homem de bigode farfalhudo. Era quase perfeito com quatro camas e duas janelas ao fundo que davam para a pequena rua de lama por onde havíamos entrado. Mais tarde viríamos a descobrir que existia uma simples e muito rústica cozinha com um forno a lenha e um bico de gás que podíamos utilizar. “You do the dreaming, we take care of the details” dizia a Jennifer, uma canadiana que conheci em Pokhara.
No primeiro dia relaxamos da longa viagem entre comida caseira, ervas aromáticas e mais umas garrafas de Royal Stag, o patrocinador oficial das nossas longas noite de conversas extensas à cerca de viagens, lugares, experiências. À noite já o Zé e a Dana dormiam, enquanto Maria e eu continuávamos a nossa aproximação. Ficamos horas na conversa a partilhar sonhos, projectos, estórias passadas, coisas em comum. Parecia cada vez mais inevitável a nossa relação com o crescimento da nossa intimidade.
O tempo corria com uma enorme pressa. Tentei abstrair-me, desfrutar o mais que podia, mas na verdade não me saí da cabeça o regresso.
Uma tarde saímos para uma caminhada a Ramrkot, uma pequena e esquecida aldeia tribal. Percorremos trilhas entre campos de arroz onde os locais começavam a fazer a colheita. Mulheres e crianças eram em maior número. Os mais pequenos já ajudam. Dão uma mão aos mais velhos apesar da sua estrutura mínima. Os seus olhos rasgados e a face queimada pelo frio e pelo sol levaram-me mais uma vez a pensar na sorte que tenho e que por vezes me queixo em demasia.
Em Ramrkot, conhecemos um velho ancião e enquanto tentávamos comunicar reparei na ligação entre a geração mais velha e a mais nova. Brincadeiras, carinho, respeito e admiração ligam avós e netos. Algo que cada vez é mais raro no mundo ocidental onde os mais velhos são vistos como quase dispensáveis. Aqui o respeito e o valor de quem já muito viveu, é bem apreciado.
Regressado de Ramrkot, foi tempo de celebrar o aniversário de Krishna e dizer adeus a Bandipur, ao Zé e à Dana. Uma multidão encheu a pequena praça central de Bandipur com danças e muita cerveja, fizeram a festa não só ao Deus, como à minha despedida.
Segui rumo à capital do país, Kathmandu, uma cidade de um milhão e meio de pessoas, centro de partida para muitas expedições ao mais alto pico do planeta. Para lá chegar mais uma viagem de autocarro na companhia da Maria que também seguia para tratar da extensão do visto. Felizmente a Maria já tinha lá estado, o que facili
tou a chegada ao caótico bairro de Thamel, o gueto dos mochileiros nesta metrópole bem perto do tecto do mundo. Um bairro labiríntico de ruas estreitas, repletas de rickshaws, motas, bicicletas, carros, cães vadios e muita gente. Uma mar de tudo que parece estar em constante tempestade com o corrupio que ali se vive. No piso térreo dos prédios debilitados, centenas de lojas de souvenirs,
equipamentos para montanha, restaurantes, DVD’s piratas, artesanato. Tudo para aliviar o bolso do turista. Um inferno em qualquer altura, mas ampliado depois de todo o tempo que passei rodeado de tranquilidade desde que cheguei ao país.
Entretanto, Maria e eu começamos algo que parecia ser mais que inevitável. Entregamo-nos a prazeres carnais e tornamo-nos companheiros inseparáveis durante os meus últimos dias no Nepal.
Fugimos de Thamel e partimos à descoberta do vale de Kathmandu. Primeiro para o Swayambhunath ou o “Templo dos Macacos”, como é mais conhecido. Uma enorme estupa no topo de um dos montes que rodeiam Kathmandu. Entre peregrinos e turistas, centenas de macacos (daí o nome do templo) sempre debaixo dos olhos do Buda que pareciam vigiar todos os presentes como também a cidade lá em baixo no vale. Depois seguimos para o Shivapuri Parque, um grande parque natural nas redondezas da capital nepalesa. Um dia a seguir as trilhas até chegarmos à Nagin Gompa, um mosteiro de freiras budistas. Recebidos como sempre de braços abertos, mostraram-nos um lugar para dormir e quando seria o jantar. Comemos na companhia de uma das freiras que sorria muito, mas com quem era difícil comunicar. Uma noite de descanso. Na madrugada entrei no salão principal do templo para a última Puja. Sentado num canto, meditei com as freiras, apreciei a cerimónia cheia de
mantras, de sons graves e misteriosos que provinham das enormes e curvilíneas trombetas.
Tempo de voltar às trilhas. Começar uma longa caminhada debaixo de muita chuva. Os caminhos ficaram escorregadios e perigosos o que fez com que abrandássemos o passo. Ao fim de quase 6 horas de caminhada atingimos a estrada. Um Dal Bhat para forrar o estômago e uma curta viagem até outro importante local do mundo Budista. Bodhnath, onde se encontra a maior estupa do planeta. Um lugar de peregrinação para todos os budistas. Completamente encharcado, com água barrenta pelos joelhos pedi o meu desejo, que deve fazer-se na primeira vez que se avista a grande pirâmide branca coberta de coloridas bandeiras de reza enquanto procurava desesperadamente por um lugar para ficar. Homens tentavam desentupir os bueiros que estavam cheios de lixo o que impedia o nível da água de descer. Os monges subiam os mantos cor de paprika que envergavam e outra gente lutava contra a força das águas de vestes molhadas e os pertences apoiados na cabeça.
Na manhã seguinte a água tinha desaparecido, restavam apenas as ruas lamacentas e as pilhas de lixo que ajudavam a criar tal calamidade.
O tempo foi passado sentado nos degraus da estupa, nos bancos em seu redor apenas a observar, a ver o dia a desenrolar-se. Peregrinos, crentes, locais e turistas uns com afinidades ao caminho que é o budismo e outros simplesmente levados ali pela curiosidade que desperta. Idosas circundam lentamente a estupa com colares de contas na mão, sussurrando mantras e por vezes rodando algumas das rodas de reza que compõem a estupa em todo o redor. Na última noite em Bodhnath não conseguia dormir. Sono intranquilo, pensamentos sobre o tudo e sobre o nada. Decidi pular da cama eram 4 da manhã. Juntei-me aos peregrinos que se agrupavam às centenas à volta da estupa para começarem as pujas que iniciam mais um dia. Durante horas, também eu circundei a grande estupa, rodando algumas rodas de reza, meditando em andamento como tinha aprendido na Índia, à procura de energia para os desafios que
se seguem.
Terminada a meditação, foi tempo de encontrar-me com a Maria para regressarmos ao caótico bairro de Thamel na capital nepalesa.
Um jantar, uma última noite de paixão, um pequeno-almoço orgânico seguindo as filosofias adquiridas ao longo da viagem serviram de ingredientes para a nossa derradeira despedida. Na suposta estação, ao ar livre, num pequeno rectângulo de relva agarrava da melhor maneira o sabor doce dos lábios da Maria enquanto mergulhava no azul dos seus olhos. Estava a custar despedir-me dela. De tudo. Era mais um autocarro até à capital indiana e um voo para deixar a Ásia. Com a intermitente partida, saí agora ou saí depois, íamos aproveitando cada segundo como se fosse o último. Deixamos palavras de conforto, agradecimento e promessas impossíveis no ouvido um do outro. Chegou a hora da partida. Pela janela do autocarro ferrugento olhava para trás enquanto fazíamos os primeiros metros de viagem. Olhava para a Maria até se tornar num vulto e depois numa simples memória.
O começo do fim: Kathmandu – Delhi
Supostamente a viagem deveria levar 36 horas. Da capital nepalesa, Kathmandu, até à capital Indiana, Delhi. Mas, como sempre, era quase impossível isso acontecer. Ao fim de duas horas de viagem, o primeiro imprevisto aconteceu. Um acidente na estrada parou todo o trânsito. Foi preciso alguma paciência até que a polícia chegasse, tratasse da ocorrência e se lembrasse de limpar a estrada. Enquanto isso, muitos
dos passageiros aproveitavam para embebedar-se à beira da estrada. Seguimos caminho já com algumas horas de atraso. Como já contava com os habituais atrasos, não havia problema. Tinha bastante tempo para chegar ao meu destino. O plano era chegar a Delhi durante a tarde do dia 17 e apanhar o avião de regresso na madrugada do dia 18. Era dia 15 por isso havia tempo suficiente para pelo menos apanhar o avião.
Uma outra paragem, desta vez para mais um Dhal Bat usando as mãos para levar as lentilhas, o arroz e as batatas à boca enquanto despertava a atenção entre as almas esfomeadas. Era mais uma vez, o único estrangeiro naquele armazém de madeira à beira da estrada. Os meus companheiros de viagem juntaram-se à longa mesa de madeira tosca seguida por bancos corridos e começaram a oferecer-me cerveja local.
Entre copos e risadas, faziam-me imensas questões acerca da “minha namorada” que tinha ficado em Kathmandu. Eles assistiram com grande interesse à despedida da Maria. Ao mesmo tempo, ia aprendendo que também eles iam para Delhi para apanhar um avião para um dos muitos lugares ocidentalizados no Médio Oriente, para trabalhar na restauração ou na indústria petrolífera. Nisto não éramos muito diferentes. Eu também ia apanhar um avião e entre desvios iria para Edimburgo para muito provavelmente ir trabalhar num restaurante ou noutra parte desta industria. Ambos emigramos à procura de outras oportunidades. Só que eu era para viajar, eles para viver.
A viagem prosseguiu ao ritmo de curvas e contra curvas que adornam as montanhas, envolto numa escuridão que era apenas quebrada pela luz amarelada proveniente do faróis do autocarro. Com o embalar brusco do autocarro, tentei adormecer. Acordei bastante ensonado com algumas dores devido às posições pouco ortodoxas em que adormecia. Olhava em meu redor enquanto tentava esticar as pernas enferrujadas. Era dia, estavamos parados e o autocarro encontrava-se quase vazio. Através dos vidros sujos, via à nossa volta autocarros e camiões com a aparente disposição de não se moverem. Em torno das centenas massas de ferro, que ocupavam a estradas, estava uma multidão à espera do desenrolar dos acontecimentos. Ainda não estava inteirado do que se passava. Continuava a tentar espantar o sono e depois sim perceber o que realmente estava a acontecer. Imaginava naquela altura já estar em Sunali, a cidade fronteiriça com a Índia e pensava só estarmos à espera que a fronteira abrisse para continuarmos a viagem após ter coleccionado mais um carimbo no passaporte. Desci do autocarro com as pernas duras e tortas. Encontrei alguns dos passageiros que seguiam no mesmo autocarro, aqueles que muito se riram e questões levantaram Perguntei-lhes se já estávamos em Sunali. Pergunta à qual me responderam, para meu espanto, de forma negativa. Disseram que estávamos a cerca de 100 quilómetros da fronteira. A estrada tinha sido cortada pelos Maoístas e já tinha morrido uma pessoa. Fiquei embasbacado, entre o sono e a notícia perdi completamente o rumo. Tentava dar o usual desconto, pois quem conto um conto acrescenta sempre algo. Mesmo assim, havia motivos para me preocupar. Havia um avião para apanhar, e mesmo que tivesse algum tempo extra, contratempos deste género podem demorar muito tempo a resolver-se. Se por um pequeno acidente, estivemos parados três horas. Quanto tempo
estaríamos com um politico corte de estrada e um morto? Apesar de me parecer um pouco demais, esta noticia não me surpreendeu. Afinal, na semana anterior, os Maoístas abandonaram o parlamento devido à sua oposição contra o orçamento de estado. Nessa mesma semana, deixaram a coligação de oito partidos, ou seja, todos os partidos do país que fazem parte do governo e também da oposição. Por muito estranho que possa parecer, é assim a política do Nepal pós-guerra civil. Por isso não é de estranhar que nenhum nepalês queira falar ou mesmo saber de política. Após esse abandono, demonstrações de força, assaltos a esquadras e manifestações foram feitas pelos Maoístas através do seu braço jovem. Tudo isto era um perigoso sinal que a guerra poderia voltar.
Enquanto pensava em tudo isto, tentava equacionar qual seria a melhor opção enquanto bebericava um “chai” num dos muitos estabelecimentos à beira de estrada e entrevistava pessoas que como eu estavam ali presas. As respostas que obtinha eram as mais variadas. Uns diziam-me que, ao final de algumas horas, a situação seria resolvida. Assim chegaria a Delhi a tempo de apanhar o avião. Outros diziam que era possível ficar ali dias, talvez uma semana, dependendo tudo das negociações, da boa vontade dos Maoístas e da intervenção do exército, já que a polícia ali presente preferia não fazer nada. Estava confuso. Começava a fazer contas com o tempo que tinha disponível, com a possível duração da viagem e outros prováveis contratempos. Começava a parecer ser difícil chegar a tempo, não a Delhi, pois já não pensava mais em ver um pouco da cidade, mas chegar ao aeroporto. Os meus colegas de viagem que também iam para Delhi apanhar o tal avião para o Médio Oriente afirmavam ser impossível apanhar o voo. Era só umas horas antes do meu, mas estavam conformados com a situação. Talvez porque faça parte da cultura, deixar as coisas andar, acomodarem-se, porque se perdessem o avião sabiam que apanhariam outro porque era a entidade patronal situada no Golfo Pérsico que pagava as despesas. A minha realidade era bastante diferente. O dinheiro era escasso. Se perdesse o voo, tinha de comprar dois bilhetes. Um até Londres, outro até ao Porto. Para além disso, o
meu visto na Índia caducava no dia seguinte à minha suposta partida. Tudo isto significava, que se perdesse o voo ficaria na Índia, sem avião, sem dinheiro e sem visto. Tinha de resolver a situação, tinha que chegar a Delhi a tempo.
Bebericava mais um “chai” acompanhado de uma chamuça, enquanto procurava uma solução. Experiências anteriores diziam-me que se conseguisse passar o bloco poderia seguir viagem e chegar a horas. Deixaria o autocarro e seguiria o meu caminho até à fronteira onde havia uma certeza de existir ligação à capital indiana. Não havia transportes, mas as pessoas podiam passar a pé ou de bicicleta. Fui à procura de uma bicicleta que pudesse comprar para seguir o meu caminho. As pessoas pensavam que era maluco. Negociava peças enferrujadas cobradas a preços astronómicos. Pensei num rickshaw, mas o preço era muito elevado. Voltei ao autocarro. Os passageiros
diziam-me que tudo correria bem, que talvez às 10 da manhã estaria tudo resolvido. Passava um jovem rapaz a conduzir um rickshaw. Parei-o. Tentei negociar um preço razoável. Abanou a cabeça e disse que era muito difícil. Foi dar uma volta, mas nunca voltou. Andei mais um pouco pelos passeios de terra, onde encontrei um outro rickshaw. Fui directo ao rapaz e ofereci-lhe 500 rupias para me levar à próxima cidade após o bloco. Ficou surpreendido, com um ar de incerteza. Voltei a mencionar o valor, ao que ele respondeu com uma proposta mais elevada. Sabia que o que pagava era bastante dinheiro. Talvez o que ele faria em dois ou três dias. Disse que não pagaria nem mais uma rupia. Entretanto, na discussão juntou um grupo de gente que palpitava sobre o eventual negócio. Acabou por concordar. Subi ao topo do autocarro, tirei a mochila e despedi-me dos parceiros de viagem. Começamos a percorrer as vielas entre as massas de metal deixando para trás gente, camiões, carros e autocarros. Após a grande confusão, seguimos por uma estrada envolta em campos de arroz em tempo de colheita. Até aqui, só alguma pedras marcavam o corte de estrada. Depois entrei num mundo imóvel, onde o único movimento era o do rickshaw e do condutor que pedalava, derramava suor por todos os poros da pele escura, debaixo do sol intenso. Parávamos regularmente para ele beber água, refrescar-se numa típica bomba de mão. Seguíamos caminho naquela paz da terra de ninguém. Há distância via-se mais um aglomerado de camiões. Chegamos ao bloco, onde uma pequena ponte se encontrava barrada. O jovem rapaz dizia-me que a partir dali seria
impossível passar. Era fácil a pé, mas nunca com o rickshaw. Sem ele, ficaria apeado na terra de ninguém na companhia dos Maoístas. Fui falar com um dos homens do bloco. Tentei explicar-lhe a minha situação. Ele ignorou-me, deixou-me a falar sozinho. Voltei para trás a pensar. Falei com o condutor do rickshaw. Dizia ter terminado a viagem. Voltei ao homem do bloqueio. Continuei a explicar-lhe a situação. Adorava o país, mas esta luta era entre eles. Voltou a ignorar-me. Continuei a insistir. Fui chato. Não me calava, até que ele já tão farto de me ouvir, mandou-me falar com o chefe do bloqueio. Este, mais atencioso, reflectiu um pouco e, depois de me ouvir, consentiu que eu passasse com o rickshaw. Uma excepção concedida, quase de certeza, só por ser estrangeiro. Passagem aberta, atravessamos a ponte com a certeza de que um grande obstáculo tinha sido ultrapassado. Parecia ter o caminho aberto até Delhi. Estava a chegar à primeira vila, quando o rapaz começou a gritar. Era o autocarro para Bhairawa que partia. Ele saltou do rickshaw, correu atrás do veículo, bateu nas janelas para o obrigar a parar. Paguei o combinado e mais um merecido bónus. Segui no autocarro, estilo lata de sardinha. No meio, deixei o apinhado habitáculo. Fui para o telhado onde o espaço, o ar e as vistas eram livremente concedidas. Curtos diálogos com outros passageiros e um último vislumbrar das paisagens nepalesas.
Em Bhairawa, tentei encontrar um outro autocarro que me levasse até Sunali. Pelos vistos o bloco também tinha chegado ali. Saí a pé do centro da cidade com uma mochila às costas e uma outra à frente, enquanto pedia boleia. Um homem de turbante e longa barba, era Sikh, veio ter comigo e deu-me uma ajuda. Disse que não havia autocarros para Sunali, mas se apanhasse uma mini-van para uma outra vila, por estradas secundárias, poderia fugir a um outro bloqueio e chegar à fronteira. Mais um apertado e pequeno autocarro que cruzava caminhos pedonais, campos de arroz, casas de fachadas moribundas, mas de pessoas felizes que acenavam constantemente. O calor era muito. A comida inexistente, a água pouca. Voltei a trocar de autocarro, mas as condições continuavam as mesmas até à fronteira. Deixei um adeus profundo ao Nepal. Cruzei a linha imaginária que divide estes dois países. Carimbei o passaporte e ignorei uma abordagem mafiosa típica de qualquer fronteira.
Encontrei a paragem de autocarros. Havia um para Delhi em meia-hora. Eram duas da tarde. Cheguei à fronteira em quatro horas. Tudo estava a correr bem, apesar dos contratempos. Supostamente levaria 18 horas até Delhi, mas a experiência dizia-me que seriam mais. Já tinha feito quase 20 horas de viagem e ainda estava a meio do caminho. Escolhi um lugar de janela, por detrás do motorista, com espaço para as pernas e longe da instável traseira.
Partimos de Sunali, e após um início rápido e em boas estradas, entramos por caminhos secundários. Comecei a aperceber-me, que aquilo deveria ser uma espécie de autocarro sub-regional que parava em todas as estações e apeadeiros. A única vantagem é que podia apreciar mais uma vez a Índia rural. O dia-a-dia, as pequenas rotinas diárias, o trabalho de todos os dias, tão normal, que mais autêntico não poderia
ser. As mulheres com aqueles longos saris de cores berrantes cuidavam das casas. Crianças entre brincadeiras inocentes ou trabalhos pesados. Homens religiosos, Sadus, à procura da benevolência de outros. Vacas estacionadas onde bem entendiam. Paramos. Tivemos um furo. Estávamos entre dois descampados. Comecei a ver as coisas a correr mal, mas existia assistência por perto. Foi uma questão de fazer uns poucos quilómetros com o pneu em baixo. A noite chegou. Com ela, a vida nas ruas caía de um frenesim de motas e multidões, para ruas desertas, povoadas apenas por matilhas de cães raivosos, pessoas quase despidas a dormir num qualquer canto, praça, banco de jardim ou soleira de porta. Não eram dezenas. Eram centenas de corpos imóveis, ao relento, iluminados pelo luar. Parecia que uma praga tinha chegado e dizimado a população em segundos.
Continuavam os solavancos. Dormitava à custa de lombas e crateras nas pequenas estradas. A distância que me separava de Delhi não era muita, mas as paragens eram bastante frequentes.
O dia voltou a nascer. Continuei o meu caminho. Após mais um dia de viagem, cheguei à grande babilónia. Poluição, trânsito, gente e mais gente, progresso não planeado. Cansado, cheio de fome, fui despejado do autocarro num terminal qualquer. Finalmente, estava em Delhi. Depois de ter deixado Kathmandu 47 horas antes. Dois dias sem parar, cheio de peripécias e muita pouca comida no estômago. Segui num rickshaw para Paraganj. O mercado principal e o gueto dos mochileiros. Ruas lotadas
de gente, trânsito, vacas e locais na sua rotina diária. Viajantes a chegar, a partir, a perder a cabeça em lojas exóticas. Cores, sons e cheiros intensos. Uma vida agitada que alimenta esta cidade e o país. Fui directamente para o hotel que a Tine me recomendou. Um longo duche e um Thali para ganhar energias, calar o estômago. Umas curtas horas de repouso. Apesar do cansaço, não consegui dormir. De madrugada já esperava no terminal pelo avião, enquanto me deparava com o choque de ver gente bem vestida, homens de negócios, gente que em pouco se assemelhava às pessoas que vi em quase toda a viagem.
Tinha chegado ao fim. Talvez a maior experiência da minha vida. Quase um ano. Muito intenso, que fica comigo nas memórias, mas também na pessoa que sou. Muitas alegrias, algumas tristezas, amizades feitas e crenças abraçadas. Um tempo de aprendizagem sobre o mundo, ou parte dele, mas principalmente sobre mim, o que sou, o que tenciono ser.
O regresso foi difícil. Muito mais do que esperava. Tempo de adaptação, de algumas certezas e de muitas incertezas. Acabou, porque tudo tem um fim. Mas tentarei certificar-me que não será a última. Como a Jennifer dizia “You do the dreaming and we take care of the details”.



