O nascer do sol começava a despertar a população local para mais um longo dia. A esta altura, ao contrário do que é habitual, já eu cruzava as ruas ainda desertas, de casa às costas em direcção à estação de autocarros. A contrastar com o silêncio das artérias da cidade, a estação encontrava-se em alvoroço. Centenas de homens lutavam por um lugar na desordeira fila da bilheteira que já seguia além dos limites da estação. Só mesmo o exército conseguia controlar este desassossego e agitação. No conseguia entender o que se passava. Apenas observava toda a situação ainda ensonado, enquanto esperava pelo autocarro e pensava como fui feliz em comprar um bilhete antecipadamente. Finalmente partimos, deixava Srinagar e observava os já exaltados oficiais a usarem paus de bambu para restabelecer uma ordem há já muito tempo perdida. Suspirava de alívio, deixava Caxemira sem um único arranhão e cheio de boas experiências. No caminho, o meu vizinho de lugar explicou-me a situação. O governo estadual emitiu um aviso a todos não residentes, sem trabalho e sem razão aparente para estarem em Caxemira, que haveria interrogatórios e execução de pesadas penas, caso se confirmasse que os
alegados indivíduos tivessem ligações a Al-Qaeda. Era uma maneira de desencorajar pobres indianos, de estados igualmente pobres, que desapontados com vida são muitas vezes recrutados na fronteira, entre a Índia e o Paquistão, pela organização terrorista. Isto porque umas semanas antes, aconteceram atentados bombistas no Reino Unido, com indivíduos de nacionalidade indiana. Assim, centenas de homens procuravam desesperadamente um lugar no próximo autocarro, antes que o governo, como me disse o meu vizinho, "começasse a derramar sangue". Seguimos caminho, virei as costas aos Himalaias e comecei a mergulhar no calor sufocante e húmido das monções. Sentia-me a nadar no meu próprio suor. Para piorar a situação, o condutor decidia parar de quinze em quinze minutos para comer, beber chá, preencher o totobola, sei lá. Chegamos ao cúmulo de fazer dez quilometros em duas horas. Terminei a viagem, segui imediatamente para outro autocarro, onde nao havia lugar para bagagens. Levei tudo no meu assento. Empilhei as mochilas no meu pequeno lugar e sentei-me em cima da bagagem com a cabeça a roçar o tecto da enorme sauna em que o autocarro se transformou. Duas da manhã e cheguei a Amritsar. Apesar de cansado, sujo e cheio de fome estava feliz por mais uma maratona ultrapassada. Segui num ciclo-rickshaw conduzido por um homem palito até ao "Golden Temple". Passamos por ruas escuras, sujas, dominadas por matilhas de cães que à noite tomam conta da cidade. Nos passeios desmoronados, encostados às paredes, centenas de pessoas dormiam em pedaços de cartão ou simplesmente no cimento, despidas com farrapos que, uma vez, foram peças de vestuário. Mark Twain descreve esta situação de forma bastante peculiar e correcta "Parece que atravessamos uma cidade de mortos. Existe uma pequena sugestão de vida nestas desertas ruas ... por todo lado, no chão, dormem centenas de nativos . A sua atitude e rigidez falsifica a morte". Esta visão descreve as ruas de Mumbai (ex-Bombaim) mas aplica-se a qualquer grande cidade indiana. Entrei num grande dormitório de camas enfileiradas e recheadas com viajantes de varias nações. Caí no meu colchão quase pronto para dormir, mas antes ainda revi a cena há pouco vislumbrada. Mais uma vez pensei na sorte que tenho em poder usufruir diariamente de um tecto para dormir e de comida para me alimentar. Necessidades tão básicas, que tomo por
garantidas e que sao para mim, mas não para milhões de habitantes neste grande, belo mas também injusto planeta. O Sri Harmardar Sahib ou "Golden Temple", como é conhecido, é o local mais sagrado para os Sikhs. A Meca para os homens de turbante e barba longa.Um lugar onde a paz e o misticismo vivem de mãos dadas com extrema boa vontade e também opulência. Talvez para mostrar que é possível as duas viverem juntas. O templo dourado é um edifício onde grande parte do exterior é coberto de ouro. Este templo situa-se num enorme complexo todo em mármore branca. A rodear o reluzente edifício, existe um enorme lago de água sagrado, onde os peregrinos vêm banhar-se e purificar-se. Especial roupa interior, cabelo nunca cortado, pulseira de prata e punhal de ferro são características do povo Sikh. Conhecidos como ferozes e guerreiros são também afáveis e amigos do próximo e a sua religião e história representam bem estas características. Fundada por Guru Nanak, um homem que não acreditava nas práticas religiosas do Islão e Hinduísmo, pois achava-as um pouco extremistas. Acreditava na igualdade de todos os seres humanos, desaprovava o sistema de castas, a idolatração de figuras religiosas, o jejum ou qualquer restrição alimentar. Uma religião mais aberta e compreensiva. O templo está aberto a todos, de todas as religiões e crenças. Toda a gente se pode banhar no lago sagrado, visitar o templo e usufruir de todas as infra-estruturas. Quartos, camas são fornecidos a peregrinos. Existe um dormitório para estrangeiros que funciona por doação. Uma cozinha, onde a comida é para todos sem qualquer pagamento envolvido, uma das marcas de um templo Sikh. Uma imensa máquina que trabalha vinte e quatro horas por dia. Trinta mil refeições são servidas diariamente com muitos sorrisos à mistura. Arroz, dal, chapati e água servidos a ritmo de metrelhadora enchem barrigas de todos os estratos sociais. Humildemente, aceita-se a comida sentado no chão. Por detrás desta boa acção está um impressionante sistema, onde centenas de voluntários preparam comida, servem-na, lavam pratos e copos, recolhem os utensílios. Algo tão impressionate, talvez mais que o próprio templo. Regressando ao complexo de márm
ore branca, peregrinos e visitantes, de pés lavados e cabeça coberta, percorrem os grandes corredores em volta do lago, refugiam-se debaixo das arcadas ao som das escrituras do livro sagrado (Sri Guru Grath Sahib Ji) que ininterruptamente é recitado ao som do harmónio e da tabla. À noite, realiza-se uma cerimónia onde o livro sagrado abandona o templo de ouro e é carregado por centenas de crentes até ao Sri Akal Takhat Sahib, onde é guardado e onde descansa até à manhã seguinte. O Akal Takhat é um edifício de cúpula dourada, onde, além de se guardar o livro sagrado, é onde todas as regras, leis e decisões são feitas e emitidas. Um género de tribunal constitucional da comunidade sikh. Em 1984, independistas Sikhs que desejavam um estado do Punjab refugiaram-se no complexo. A mando da primeira-ministra indiana Indira Gandhi, o exercito invadiu o solo sagrado e matou centenas de pessoas, além de destruir o Akal Takhat. A tal violação, os Sikhs tiveram a sua vingança como povo guerreiro que são. Indira Gandhi foi assassinada pelos próprios guarda-costas que eram Sikhs. O governo indiano reconstruiu o Akal Takhat e devolveu-o à comunidade, que o rejeitou, deitou abaixo e construiu tudo de novo com as próprias mãos. Usufruí da espiritualidade que rodeia o complexo. Sentado à sombra debaixo de uma das brancas e frescas arcadas, observava peregrinos a banharem-se e a circunrodar o templo e apreciava o dourado edifício. Por umas horas, abandonei o complexo e rumei à fronteira com o Paquistão em Attari, onde acontece uma das mais curiosas e mirambulantes cerimónias que alguma vez observei. O encerrar da fronteira entre os dois países, que acontece diariamente. Trinta minutos de protocolo militar, onde guardas escolhidos pela sua altura (para mostrar a superioridade do país) marcham até ao portão com o país vizinho e saudam os guardas do outro lado da
fronteira. Entretanto, em bancadas típicas de um estádio, centenas de pessoas gritam pelo país, agitam bandeiras, cantam músicas. Uma patriótica histeria, que só vi em estádios de futebol. Meia hora de orgulho nacional. Com o descer da bandeira - as duas ao mesmo tempo, pois nenhuma das nações quer prestar vassalagem ao vizinho - segue-se uma correria até aos portões para cumprimentar os habitantes do outro lado, da outra nação, que uma vez fez parte da Índia. Regressei a Amritsar e ao "Golden Temple" para uma última refeição no salão comunal, uma nova amizade com o Rakesh e um banho sagrado com vista para o templo espelhado na água como forma de despedida de mais um lugar mágico que guardo no sotão das boas memórias.
alegados indivíduos tivessem ligações a Al-Qaeda. Era uma maneira de desencorajar pobres indianos, de estados igualmente pobres, que desapontados com vida são muitas vezes recrutados na fronteira, entre a Índia e o Paquistão, pela organização terrorista. Isto porque umas semanas antes, aconteceram atentados bombistas no Reino Unido, com indivíduos de nacionalidade indiana. Assim, centenas de homens procuravam desesperadamente um lugar no próximo autocarro, antes que o governo, como me disse o meu vizinho, "começasse a derramar sangue". Seguimos caminho, virei as costas aos Himalaias e comecei a mergulhar no calor sufocante e húmido das monções. Sentia-me a nadar no meu próprio suor. Para piorar a situação, o condutor decidia parar de quinze em quinze minutos para comer, beber chá, preencher o totobola, sei lá. Chegamos ao cúmulo de fazer dez quilometros em duas horas. Terminei a viagem, segui imediatamente para outro autocarro, onde nao havia lugar para bagagens. Levei tudo no meu assento. Empilhei as mochilas no meu pequeno lugar e sentei-me em cima da bagagem com a cabeça a roçar o tecto da enorme sauna em que o autocarro se transformou. Duas da manhã e cheguei a Amritsar. Apesar de cansado, sujo e cheio de fome estava feliz por mais uma maratona ultrapassada. Segui num ciclo-rickshaw conduzido por um homem palito até ao "Golden Temple". Passamos por ruas escuras, sujas, dominadas por matilhas de cães que à noite tomam conta da cidade. Nos passeios desmoronados, encostados às paredes, centenas de pessoas dormiam em pedaços de cartão ou simplesmente no cimento, despidas com farrapos que, uma vez, foram peças de vestuário. Mark Twain descreve esta situação de forma bastante peculiar e correcta "Parece que atravessamos uma cidade de mortos. Existe uma pequena sugestão de vida nestas desertas ruas ... por todo lado, no chão, dormem centenas de nativos . A sua atitude e rigidez falsifica a morte". Esta visão descreve as ruas de Mumbai (ex-Bombaim) mas aplica-se a qualquer grande cidade indiana. Entrei num grande dormitório de camas enfileiradas e recheadas com viajantes de varias nações. Caí no meu colchão quase pronto para dormir, mas antes ainda revi a cena há pouco vislumbrada. Mais uma vez pensei na sorte que tenho em poder usufruir diariamente de um tecto para dormir e de comida para me alimentar. Necessidades tão básicas, que tomo por
garantidas e que sao para mim, mas não para milhões de habitantes neste grande, belo mas também injusto planeta. O Sri Harmardar Sahib ou "Golden Temple", como é conhecido, é o local mais sagrado para os Sikhs. A Meca para os homens de turbante e barba longa.Um lugar onde a paz e o misticismo vivem de mãos dadas com extrema boa vontade e também opulência. Talvez para mostrar que é possível as duas viverem juntas. O templo dourado é um edifício onde grande parte do exterior é coberto de ouro. Este templo situa-se num enorme complexo todo em mármore branca. A rodear o reluzente edifício, existe um enorme lago de água sagrado, onde os peregrinos vêm banhar-se e purificar-se. Especial roupa interior, cabelo nunca cortado, pulseira de prata e punhal de ferro são características do povo Sikh. Conhecidos como ferozes e guerreiros são também afáveis e amigos do próximo e a sua religião e história representam bem estas características. Fundada por Guru Nanak, um homem que não acreditava nas práticas religiosas do Islão e Hinduísmo, pois achava-as um pouco extremistas. Acreditava na igualdade de todos os seres humanos, desaprovava o sistema de castas, a idolatração de figuras religiosas, o jejum ou qualquer restrição alimentar. Uma religião mais aberta e compreensiva. O templo está aberto a todos, de todas as religiões e crenças. Toda a gente se pode banhar no lago sagrado, visitar o templo e usufruir de todas as infra-estruturas. Quartos, camas são fornecidos a peregrinos. Existe um dormitório para estrangeiros que funciona por doação. Uma cozinha, onde a comida é para todos sem qualquer pagamento envolvido, uma das marcas de um templo Sikh. Uma imensa máquina que trabalha vinte e quatro horas por dia. Trinta mil refeições são servidas diariamente com muitos sorrisos à mistura. Arroz, dal, chapati e água servidos a ritmo de metrelhadora enchem barrigas de todos os estratos sociais. Humildemente, aceita-se a comida sentado no chão. Por detrás desta boa acção está um impressionante sistema, onde centenas de voluntários preparam comida, servem-na, lavam pratos e copos, recolhem os utensílios. Algo tão impressionate, talvez mais que o próprio templo. Regressando ao complexo de márm
ore branca, peregrinos e visitantes, de pés lavados e cabeça coberta, percorrem os grandes corredores em volta do lago, refugiam-se debaixo das arcadas ao som das escrituras do livro sagrado (Sri Guru Grath Sahib Ji) que ininterruptamente é recitado ao som do harmónio e da tabla. À noite, realiza-se uma cerimónia onde o livro sagrado abandona o templo de ouro e é carregado por centenas de crentes até ao Sri Akal Takhat Sahib, onde é guardado e onde descansa até à manhã seguinte. O Akal Takhat é um edifício de cúpula dourada, onde, além de se guardar o livro sagrado, é onde todas as regras, leis e decisões são feitas e emitidas. Um género de tribunal constitucional da comunidade sikh. Em 1984, independistas Sikhs que desejavam um estado do Punjab refugiaram-se no complexo. A mando da primeira-ministra indiana Indira Gandhi, o exercito invadiu o solo sagrado e matou centenas de pessoas, além de destruir o Akal Takhat. A tal violação, os Sikhs tiveram a sua vingança como povo guerreiro que são. Indira Gandhi foi assassinada pelos próprios guarda-costas que eram Sikhs. O governo indiano reconstruiu o Akal Takhat e devolveu-o à comunidade, que o rejeitou, deitou abaixo e construiu tudo de novo com as próprias mãos. Usufruí da espiritualidade que rodeia o complexo. Sentado à sombra debaixo de uma das brancas e frescas arcadas, observava peregrinos a banharem-se e a circunrodar o templo e apreciava o dourado edifício. Por umas horas, abandonei o complexo e rumei à fronteira com o Paquistão em Attari, onde acontece uma das mais curiosas e mirambulantes cerimónias que alguma vez observei. O encerrar da fronteira entre os dois países, que acontece diariamente. Trinta minutos de protocolo militar, onde guardas escolhidos pela sua altura (para mostrar a superioridade do país) marcham até ao portão com o país vizinho e saudam os guardas do outro lado da
fronteira. Entretanto, em bancadas típicas de um estádio, centenas de pessoas gritam pelo país, agitam bandeiras, cantam músicas. Uma patriótica histeria, que só vi em estádios de futebol. Meia hora de orgulho nacional. Com o descer da bandeira - as duas ao mesmo tempo, pois nenhuma das nações quer prestar vassalagem ao vizinho - segue-se uma correria até aos portões para cumprimentar os habitantes do outro lado, da outra nação, que uma vez fez parte da Índia. Regressei a Amritsar e ao "Golden Temple" para uma última refeição no salão comunal, uma nova amizade com o Rakesh e um banho sagrado com vista para o templo espelhado na água como forma de despedida de mais um lugar mágico que guardo no sotão das boas memórias.
















